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terça-feira, 27 de março de 2007

John Bunyan


John Bunyan
O Sonhador Imortal
(1628 -1688)



“Caminhando pelo deserto deste mundo, parei num sítio onde havia uma caverna (a prisão de Bedford): ali deitei-me para descansar. Em breve adormeci e tive um sonho. Vi um homem coberto de andrajos, de pé, e com as costas voltadas para a sua habitação, tendo sobre os ombros uma pesada carga e nas mãos um livro”.

Faz três séculos que John Bunyan assim iniciou o seu livro O Peregrino. Os que conhecem suas obras literárias podem testificar de que ele é, de fato, “o sonhador imortal” – estando ele morto ainda fala. Contudo, enquanto miríades de crentes conhecem O peregrino, poucos conhecem da historia da vida de oração desse valente pregador.

Bunyan, na sua obra Graça Abundante ao Principal dos Pecadores, nos informa que seus pais, apesar de viverem em extrema pobreza, conseguiram ensiná-lo a ler e escrever. Ele mesmo intitulou-se o “principal dos pecadores”; outros atestam que mesmo em sua impiedade jamais foi beberrão ou imoral. Contudo, casou-se com uma moça de família cujos membros eram crentes fervorosos. Bunyan ara funileiro e, como acontecia com todos os funileiros, era paupérrimo. Ele não possuía nem um prato nem uma colher, apenas dois livros: O Caminho do Homem Simples para os Céus e A Prática da Piedade, obras que seu pai, ao falecer, lhe deixara. Apesar de Bunyan achar algumas coisas que lhe interresava nesses dois livros. Somente nos cultos é que se sentiu convicto de estar no caminho para o inferno.

Descobre-se nos seguintes trechos, transcritos de Graça Abundante ao Principal dos Pecadores, como ele lutava em oração no tempo da sua conversão:

Veio-me as mãos uma obra do Ranters, livro estimado por alguns doutores. Não sabendo julgar os méritos dessas doutrinas, dediquei-me a orar desta maneira: “Ó Senhor, não sei julgar entre o erro e a verdade. Senhor, não me abandones por aceitar ou rejeitar essa doutrina cegamente; se ala for de ti, não me deixes desprezá-la; se for do diabo, não me deixes abraçá-la!” Louvado seja Deus – Ele que me dirigiu a clamar, desconfiado da minha própria sabedoria -, Ele mesmo me guarda do erro dos Ranters. A Bíblia para mim já era muito preciosa nesse tempo.
Enquanto me sentia condenado às penas eternas, admirei-me de como o próximo se esforçava para ganhar bens terrestres, como se esperasse viver aqui eternamente... Se eu pudesse ter a certeza da salvação da minha alma, como me sentiria rico, mesmo que não tivesse mais para comer a não ser feijão.

Busquei ao Senhor, orando e chorando, e do fundo da alma clamei: “Ó Senhor, mostra-me, eu te rogo, que me amas com amor eterno!” Logo que clamei, voltaram para mim as palavras, como um eco: “Eu te amo com amor eterno!” Deitei-me para dormir em paz e, ao acordar, no dia seguinte, a mesma paz permanecia na minha alma. O Senhor me assegurou: “Amei-te enquanto vivias no pecado, amei-te antes, amo-te depois e amar-te-ei por todo o sempre”.
Certa manhã, enquanto tremia na oração, porque pensava que não houvesse palavra de Deus para me sossegar, Ele me deu esta frase: “A minha graça te basta”.
O meu entendimento foi tão iluminado como se o Senhor Jesus olhasse dos céus para mim, pelo telhado da casa, e me dirigisse essas palavras. Voltei para casa chorando, transbordando de gozo e humilhado até o pó. Contudo, certo dia, enquanto andava no campo, a consciência inquieta, de repente estas palavras entraram da minha alma: “Tua justiça está nos céus”. E parecia que, com os olhos da alma, via Jesus Cristo à destra de Deus, permanecendo ali como minha justiça... Vi, além disso, que não é o meu bom coração que torna a minha justiça melhor, nem que a prejudica; porque a minha justiça é o próprio Cristo, o mesmo ontem, hoje e para sempre. As cadeias então caíram-me das pernas; fiquei livre das angústias; as tentações perderam a força; o horror da severidade de Deus não mais me perturbava, e voltei para casa regozijando-me na graça e no amor de Deus. Não achei na bíblia a frase “Tua justiça está nos céus”, mas achei “o qual para nós foi feito por Deus sabedoria e justiça, e santificação, e redenção” (1Co 1:30), e vi que a outra frase era verdade.

Enquanto eu assim meditava, o seguinte trecho da Escrituras penetrou no meu espírito com poder: “não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou”. Assim fui levado para as alturas e me achei nos braços da graça e da misericórdia. Antes temia a morte, mas depois clamei: “Quero morrer”. A morte tornou-se para mim uma coisa desejável. Não se vive verdadeiramente antes de passar para a outra vida. “Oh!”, pensava eu, “esta vida é apenas um sonho em comparação à outra!” Foi nessa ocasião que as palavras “herdeiros de Deus” se tornaram tão cheias de sentido, que eu não tenho como explicá-las aqui neste mundo. “Herdeiros de Deus!” O próprio Deus é a porção dos santos. Isso vi e disso me admirei, contudo, não posso contar o que vi... Cristo era um Cristo precioso na minha alma, era o meu gozo; a paz e o triunfo por Cristo eram tão grandes que tive dificuldade em conter-me e ficar deitado.


Bunyan, ainda que lutando para sair da escravidão do vício do pecado, não fechava a alma aos perdidos que ignoravam os horrores do inferno. Acerca disto ele escreveu:

Percebi pelas Escrituras que o Espírito Santo não quer que os homens enterrem seus talentos e dons, mas antes que despertem esses dons... Dou graças a Deus por me haver concedido uma medida de entranhas e compaixão pela alma do próximo, e me enviou a esforçar-me grandemente para falar uma palavra que Deus pudesse usar para apoderar-se da consciência e despertá-la. Nisso o bom Senhor respondeu ao apelo de seu servo, e o povo começou a mostrar-se comovido e angustiado de espírito ao perceber o horror do seu pecado e a necessidade de aceitar a Jesus Cristo.
De coração, clamei a Deus com grande insistência que Ele tornasse a Palavra eficaz para a salvação da alma... De fato, disse repetidamente ao Senhor que, se o meu enforcamento perante os olhos dos ouvintes servisse para despertá-los e confirmá-los na verdade, eu o aceitaria alegremente. O maior anelo em cumprir meu ministério era o de entrar nos lugares mais escuros do país... Na pregação, realmente sentia dores de parto para que nascessem filhos para Deus. Sem fruto, não ligava importância a qualquer louvor aos meus esforços; com fruto, não me importava com qualquer oposição.


Os obstáculos que Bunyan tinha que encarar eram muitos e variados. Satanás, vendo-se grandemente prejudicado pela obra desse servo de Deus, começou a levantar barreiras de todas as formas. Bunyan resistia fielmente a todas as tentações de vangloriar-se sobre o fruto de seu ministério e cair na condenação do diabo. Quando, certa vez, um dos ouvintes lhe disse que pregara um bom sermão, ele respondeu: “Não precisa dizer-me isso, o diabo já cochichou a mesma coisa no meu ouvido antes de sair da tribuna”.
Então o inimigo das almas suscitou calúnias e boatos em todo o país, a fim de induzi-lo a abandonar o ministério. Chamavam-no de feiticeiro, jesuíta, cangaceiro, e afirmavam que vivia amancebado, que tinha duas esposas e que os seus filhos eram ilegítimos.

Quanto o maligno falhou em todos esses planos de desviar Bunyan do seu ministério glorioso, seus opositores denunciaram-no por não observar os regulamentos dos cultos da igreja oficial. As autoridades civis o sentenciaram à prisão perpétua, recusando terminantemente a revogação da sentença, apesar de todos os esforços de seus amigos e dos rogos da sua esposa – tinha de ficar preso até se comprometer a não mais pregar.

Acerca de sua prisão, ele diz:

Nunca tinha sentido a presença de Deus ao meu lado em todas as ocasiões como depois de ser encerrado... fortalecendo-me tão ternamente com esta ou aquela Escritura até me fazer desejar, se fosse lícito, maiores provações para receber maiores consolações.
Antes de ser preço, eu previ o que aconteceria, e duas coisas ardiam no coração acerca de como poderia encarar a morte, se chegasse a tal ponto. Fui dirigido a orar pedindo a Deus que me fortalecesse com toda a força, segundo o poder de sua Glória, em toda a fortaleza e longanimidade, dando com alegria graças ao Pai. Quase nunca orei, durante o ano que precedeu minha prisão, sem que essa Escritura me entrasse na mente e eu compreendesse que para sofrer com toda a paciência devia ter toda a fortaleza, especialmente para sofrer com alegria.

A segunda consideração foi na passagem que diz: “Mas nós temos tido dentro de nós mesmos a sentença de morte para que não confiássemos em nós mesmos, porém em Deus que ressuscita os mortos”. Cheguei a ver, por essa Escritura, que se eu chegasse ao ponto de sofrer como devia, primeiramente tinha que sentenciar a morte todas as coisas que pertencem à nossa vida, considerando-me a mim mesmo, minha esposa, meus filhos, a saúde, os prazeres, tudo, enfim, como mortos para comigo e eu morto pra com eles.
Resolvi, como Paulo disse, não olhar para as coisas que se vêem, mas sim para as que se não vêem, porque as coisas que se vêem são temporais, mas as que se não vêem são eternas. E compreendi que se eu fosse prevenido apenas de ser preso, poderia, de improviso, ser chamado, também, para ser açoitado, ou amarrado ao pelourinho.

Ainda que esperasse apenas esses castigos, não suportaria o castigo de desterro. Mas a melhor maneira de suportar os sofrimentos seria confiar em Deus, quanto ao mundo vindouro; quanto a este mundo, devia considerar o sepulcro como a minha morada, estender o meu leito nas travas e dizer à corrupção: “Tu és meu pai!”, e aos vermes: “Vós sois minha mãe e minha irmão” (Jó 17:13,14). Contudo, apesar desse auxílio, senti-me um homem cercado de fraquezas. A separação da minha esposa e de nossos filhos, aqui na prisão, torna-se, às vezes, como se fosse a separação da carne dos ossos. E isto não somente porque me lembro das tribulações e misérias que meus queridos têm de sofrer; especialmente a filhinha cega. Minha pobre filha, quão triste é a tua porção neste mundo! Serás maltratada, pedirás esmolas; passará fome, frio, nudez e outras calamidades! Oh! Os sofrimentos da minha ceguinha quebrar-me-iam o coração aos pedaços!

Eu meditava muito, também, sobre o horror do inferno dos que temiam a cruz a ponto de se recusarem a glorificar a Cristo, suas palavras e leis perante os filhos dos homens. Além do mais, pensava sobre a glória que Ele preparara para os que, em amor, fé e paciência, testificavam dEle. A lembrança destas coisas servia para diminuir a mágoa que sentia ao lembrar-se de que eu e meus queridos sofríamos pelo testemunho de Cristo.

Nem todos os horrores da prisão abalaram o espírito de John Bunyan. Quando lhes oferecia a sua liberdade sob a condição de ele não pregar mais, respondia: “Se eu sair hoje da prisão, pregarei amanhã, com o auxílio de Deus”.
Mas se alguém pensar que, afinal de contas, John Bunyan era apenas um fanático, deve ler e meditar sobre as obras que nos deixou: Graça Abundante ao Principal dos Pecadores; Chamado ao Ministério; O Peregrino; A Peregrina; A Conduta do Crente; A Gloria do Templo; O Pecador de Jerusalém É Salvo; As Guerras da Famosa Cidade de Alma-humana; A Vida e a Morte de Homem Mau; O Sermão do Monte: A Figueira Infrutífera; Discursos sobre Oração; O Viajante Celestial; Gemidos de uma Alma no inferno; A justificação É Imputada, entre outros.

Passou mais de doze anos encarcerado. É fácil dizer que foram doze anos, mas é difícil conceber o que isso significa – passou mais da quinta parte da sua vida na prisão, na idade de maior energia. Foi um Quacre chamado Whitehead que conseguiu a sua libertação. Depois de liberto, pregou em Bedford, Londres, e muitas outras cidades. Era tão popular que foi alcunhado de “Bispo Bunyan”. Continuou o seu ministério fielmente até a idade de 60 anos, quando foi atacado de febre e faleceu. O seu túmulo é visitado por dezenas de milhares de pessoas.

O orador, o escritor, o pregador, o professor da Escola Dominical e o pai de família, cada um conforme o seu ofício, podem lucrar grandemente com um estudo do estilo e méritos se seus escritos, apesar de ter sido apenas um humilde funileiro sem instrução. Mas como se pode explicar o maravilhoso sucesso de Bunyan? Como pode um iletrado pregar como ele pregava e escrever num estilo capaz de interresar a criança e o adulto; ao pobre e ao rico; ao douto e ao indouto? A única explicação do seu êxito é que ele era um homem em constante comunhão com Deus. Apesar de seu corpo estar preso no cárcere, a sua alma estava liberta. Porque foi ali, numa cela, que John Bunyan teve as visões descritas nos seus livros – visões muito mais reais do que os seus perseguidores e as paredes que o cercavam. Depois de desaparecerem os perseguidores da terra e as paredes virarem pó, o que Bunyan escreveu continua a iluminar e alegrar todas as terras e gerações.

O que vamos citar mostra como Bunyan lutava com Deus em oração: “Há, na oração, o ato de desvelar a própria pessoa, de abrir o coração perante Deus, de derramar afetuosamente a alma em pedidos, suspiros e gemidos. ‘Senhor’, disse Davi, ‘diante de ti está todo o meu desejo e o meu gemido não te é oculto’ (Sl 38:9). E outra vez: ‘A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando entrarei e me apresentarei ante a face de Deus? Quando me lembro disto, dentro de mim derramo a minha alma!’ (Sl 42:2-4). Note: ‘Derramo a minha alma!’ é um termo demonstrativo de que em oração sai a própria vida e toda a força para Deus”.
Em outra ocasião escreveu: “As melhores orações consistem, às vezes. Mais em gemidos do que em palavras, e estas palavras não são mais que a mera representação do coração, vida e espírito de tais orações”.
Como ele “insistia e importunava” em oração a Deus fica claro no trecho seguinte: “Eu te digo: Continua a bater, chorar, gemer e prantear; se Ele se não levantar para te dar porque és teu amigo, ao menos por causa da tua importunação levantar-se-á para dar-te tudo o que precisares”.

Sem contestação, o grande fenômeno da vida de John Bunyan consistia no seu conhecimento íntimo das Escrituras, as quais amava; e na perseverança em oração ao Deus que adorava. Se alguém duvidar de que Bunyan seguia a vontade de Deus nos doze longos anos que passou na prisão de Bedford, deve lembrar-se de que esse servo de Cristo, ao escrever O Peregrino atrás das grades, pregou um sermão que já dura quase três séculos e que hoje é lido em cento e quarenta línguas. É o livro de maior circulação depois da Bíblia. Sem tal dedicação, não seria possível conseguir o incalculável fruto eterno desse sermão pregado por um funileiro cheio da graça de Deus!

Fonte: Livro Heróis da Fé / p. 31-38
Autor: Orlando Boyer Editora: CPAD

segunda-feira, 26 de março de 2007

Policarpo de Esmirna

(69-155)


Policarpo,nascido por volta do ano de 69, foi bispo da cidade de Esmirna. Por dois fatos ele se destaca:primeiro, é provável que tenha conhecido alguns dos discípulos contemporâneos de Jesus. Segundo, dentre todos os primeiros mártires cristãos, Policarpo foi um dos mais velhos. Aos 86 anos de idade foi preso durante uma celebração pagã. Quando as autoridades lhe ordenaram que renunciasse a sua fé, Policarpo respondeu "Durante 86 anos fui servo de Deus, e ele nunca procedeu mal contra mim. Como posso então blasfemar contra meu Rei, que me salvou?". Enfurecidos, seus perseguidores queimaram-no ate a morte. Estas orações, escritas por Policarpo, mostram como era profunda a sua fé.


Que o nosso fruto seja abundante

Meu Deus e Pai,
e tu, eterno sumo sacerdote, Jesus Cristo,
fortalecei-nos na fé, verdade e amor.
Concedei-nos um lugar entre os santos
com todos aqueles que confiam em nosso
Senhor Jesus Cristo.
Oramos por todos os santos, por reis e governantes,
pelos inimigos da cruz de Cristo
e por nós mesmos.
Oramos para que o nosso fruto seja abundante
e que possamos alcançar a completitude em
Cristo Jesus, nosso Senhor.


Tu me consideraste digno

Senhor Deus Todo-Poderoso,
Pai de teu bem-amado e abençoado Filho Jesus Cristo,
pelo qual nós chegamos a conhecer-te plenamente-
Deus de anjos, poderes e de toda a criação,
e de toda a família dos justos que se conduzem sob o teu olhar:
Eu te bendigo por me haveres considerado digno,
neste dia e nesta hora,
de ser incluído na classe dos mártires,
de beber do cálice do teu Cristo,
para que eu possa ressuscitar e viver para sempre, corpo e alma,
na incorruptibilidade do Espírito Santo.
Que eu possa com os mártires ter acesso a tua
presença neste dia,
qual sacrifício aceitável e agradável.
Tu fizeste da minha vida uma preparação para este momento,
tu me deixaste antever o porvir
e agora tu o propicias,
pois tu és o Deus verdadeiro e fiel.
Por isso e por tudo eu te louvo e glorifico,
por intermédio do eterno sumo sacerdote,
o celestial Jesus Cristo, teu querido Filho.
Ele está contigo e com o Espírito Santo.
Por Ele, glória a ti agora e por todo o sempre.
Amém.

Policarpo de Esmirna
por Duane Arnold e Robert Hudson

quinta-feira, 22 de março de 2007

Jônatas Edwards



O Grande Avivalista(1703 – 1758)

Há dois séculos o mundo fala do famoso sermão “Pecadores nas mãos de um Deus irado” e dos ouvintes que se agarravam aos bancos pensando que iam cair no fogo eterno. Esse fato foi, apenas, um dos muitos que aconteceram nas reuniões em que o Espírito Santo desvendava os olhos dos presentes para contemplarem as glórias do céu e a realidade do castigo que está bem perto dos que se encontram afastados de Deus.Jônatas Edwards, entre os homens, era o vulto maior nesse avivamento, intitulado, na ocasião, “Grande Despertamento”. Sua vida é um exemplo destacado de consagração ao Senhor para o desenvolvimento maior do intelecto e, sem qualquer interesse próprio, de deixar o Espírito Santo usar o mesmo intelecto como instrumento nas suas mãos.

Amava a Deus, não somente de coração e alma, mas também de todo o entendimento. “Sua mente prodigiosa apoderava-se das verdades mais profundas”. Contudo, “sua alma era, de fato, um santuário do Espírito Santo”. Sob aparente calma exterior, ardia nele o fogo divino, como um vulcão.

Os crentes atuais devem a esse Herói, graças a sua perseverança em orar e estudar sob a direção do Espírito, a volta às várias doutrinas e praticas da igreja primitiva. Grande foi o fruto da dedicação do lar em que Edwards nasceu e se criou. Seu pai foi o amado pastor de uma só igreja durante um período de sessenta e quatro anos. Sua piedosa mãe era filha de um pregador que pastoreou uma igreja durante mais de cinqüenta anos.
Das dez irmãs de Jônatas, quatro eram mais velhas do que ele e seis mais novas. “Muitas foram as orações que os pais ofereceram a Deus para que o único e amado filho fosse cheio do Espírito Santo, e que se tornasse grande perante o Senhor. Não somente oravam assim, fervorosa e constantemente, mas mostravam-se igualmente zelosos em criá-lo para Deus. As orações em volta da lareira, os estimularam a se esforçarem , e seus esforços redobrados os motivaram a orar mais fervorosamente... O ensino religioso e permanente resultou em Jônatas conhecer intimamente a Deus, quando ainda criança”.Quando Jônatas tinha 7 ou 8 anos, houve um despertamento na igreja de seu pai, e o menino acostumou-se a orar sozinho, cinco vezes, todos os dias, e a chamar outros da sua idade para orarem com ele.Citamos aqui as suas palavras sobre esse assunto:

A primeira experiência de que me lembro, de sentir no intimo a delicia de Deus e das coisas divinas, foi ao ler as palavras de 1 Timóteo 1:7: “Ora, ao Rei dos séculos, imortal, invisível; ao único Deus seja honra e glória para todo o sempre. Amém”. Sentia a presença de Deus até arder o coração e abrasar a alma de tal maneira, que não sei descrevê-la... Gostava de passar o tempo olhando para a lua e, de dia, contemplar as nuvens e os céus. Passava muito tempo observando a glória de Deus, revelada na natureza e cantando as minhas contemplações do Criador e Redentor... Antes me sentia demasiado assombrado ao ver os relâmpagos e ouvir o troar do trovão. Porém, mais tarde, eu me regozijava ao ouvir a majestosa e terrível voz de Deus na trovoada.

Antes de completar 13 anos, iniciou seu curso em Yale College, onde, no segundo ano, leu atentamente “Ensaio sobre o Entendimento Humano”, a famosa obra de Locke. Vê-se, nas suas próprias palavras acerca dessa obra, o grande desenvolvimento intelectual do moço: “Achei mais gozo nisso do que o mais ávido avarento em juntar grandes quantidades de ouro e prata de tesouros recém-adquiridos”.Edwards, antes de completar 17 anos, diplomou-se no Yale College com as maiores honras. Sempre estudava com esmero, mas também conseguia tempo para meditar na bíblia, diariamente. Depois de diplomar-se, continuou seus estudos em Yale, durante dois anos, e foi então separado para o ministério.

Foi nessa altura que seu biógrafo escreveu acerca de seu costume de dedicar certos dias para jejuar, orar e examinar-se si mesmo.
Acerca de sua congregação, com a idade de 20 anos, Edwards escreveu: “Dediquei me solenemente a Deus e o fiz por escrito, entregando a mim mesmo e tudo o que me pertencia ao Senhor, para não ser mais meu em qualquer sentido, para não me comportar como quem tivesse direitos de forma alguma... travando, assim, uma batalha como o mundo, a carne e satanás até o fim da vida”.

Alguém assim se referiu a Jônatas: “Sua constante e solene comunhão com Deus, em secreto, fazia com que o rosto dele brilhasse perante o próximo, e sua aparência, semblante, palavras e todo o seu comportamento eram acompanhados de seriedade, gravidade e solenidade”.Aos 24 anos casou-se com Sara Pierrepont, filha de um pastor, e desse enlace nasceram, como na família do pai de Edwards, onze filhos.
Por ocasião do “Grande Despertamento”, ao lado de Jônatas Edwards estava o nome de Sara Edwards, sua fiel esposa e ajudadora em tudo. Tal qual seu marido, ela nos serve de exemplo de rara intelectualidade. Profundamente estudiosa, inteiramente entregue ao serviço de Deus, ela era conhecida por sua santa dedicação ao lar, pelo modo de criar seus filhos e pela economia que praticava, movida pelas palavras de Cristo: “Para que nada se perca”. Mas antes de tudo, tanto ela como seu marido eram conhecidos por suas experiências com a oração. Faz-se menção destacada de um período de três anos, especialmente, durante o qual, apesar de gozar de perfeita saúde, ficava repetidas vezes sem forças por causa das revelações do céu. A sua vida inteira foi de intenso gozo no Senhor.

Jônatas Edwards costumava passar treze horas, todos os dias, estudando e orando. Sua esposa também o acompanhava na oração, diariamente. Depois da última refeição, ele deixava toda a lida a fim de passar uma hora com a família.
Mas que doutrinas a igreja avia esquecido e Edwards começou a ensinar e a observar de novo, com manifestações tão sublimes?
Basta uma leitura superficial para ver que a doutrina à qual deu mais ênfase foi a do novo nascimento, apresentando-a como uma experiência certa e definida, em contraste com a idéia da igreja romana e de várias denominações.

O evento que marcou o começo do “Grande Despertamento” foi uma série de sermões feitos for Edwards sobre a doutrina da justificação pela fé. Que fez os ouvintes sentirem a verdade das Escrituras. O foco de seus sermões era que toda boca ficará fechada no dia juízo, e que “não há coisa alguma que, por um momento, evite que o pecador caia no inferno, senão o bel-prazer de Deus”.É impossível avaliar o grau do poder de Deus, derramado para despertar milhares de almas para a salvação, sem primeiro nos lembrarmos das condições das igrejas da Nova Inglaterra e do mundo inteiro, nessa época. Quem, até, hoje, não se admira do heroísmo dos puritanos que colonizaram as florestas na Nova Inglaterra? Passara, porém, essa glória, e a igreja, indiferente e cheia de pecado, encontrava-se face ao maior desastre. Parecia que Deus não queria abençoar a obra dos puritanos, obra que existiu unicamente para a sua glória. Por isso, no mesmo grau em que havia coragem e ardor entre os pioneiros, houve entre seus filhos perplexidade e confusão. Se não pudessem alcançar, de novo, a espiritualidade, só lhes restava esperar o juízo dos céus.

O famoso sermão de Edwards – “Pecadores nas mãos de um Deus irado”- merece menção especial.
O povo, ao entrar para o culto, mostrava um espírito leviano. E mesmo de desrespeito, diante dos cinco pregadores que estavam presentes. Jônatas Edwards foi escolhido para pregar. Era homem de dois metros de altura; seu rosto tinha aspecto quase feminino, e o corpo magro de jejuar e orar. Sem quaisquer gestos, encostado num braço sobre a tribuna, segurando o manuscrito na outra mão. Falava como voz monótona. Discursou sobre o texto de Deuteronômio 32:35: “Ao tempo em que resvalar o seu pé”.
Depois de explicar a passagem, acrescentou que nada evitava, por um momento, que os pecadores caíssem no inferno, a não ser a própria vontade de Deus; que Deus estava mais encolerizado com alguns dos ouvintes do que com muitas pessoas que já estavam no inferno; que o pecado era como um fogo encerrado dentro do pecador e, com a permissão de Deus, pronto a transformar-se em fornalhas de fogo e enxofre, e que somente a vontade do Deus indignado os guardava da morte instantânea.

Prosseguiu, então, aplicando o texto ao auditório:

Aí esta o inferno com a boca aberta. Não existe coisa alguma sobre a qual vós vos possais firmar e segurar. Entre vós e o inferno existe apenas a atmosfera... Há, atualmente, nuvens negras da ira de Deus pairando sobre vossas cabeças, predizendo tempestades espantosas, com grandes trovões. Se não existisse a vontade soberana de Deus, que é a única coisa para evitar o ímpeto do vento até agora, seríeis destruídos e vos tornaríeis como a palha da eira... O Deus que vos segura na mão, sobre o abismo do inferno, mais ou menos como o homem segura uma aranha ou outro inseto nojento sobre o fogo, durante um momento, para deixá-lo cair depois, está sendo provocado em extremo... Não há que admirar, se alguns de vós com saúde e calmamente sentados aí nos bancos, passarem para lá antes de amanhã...


O resultado do sermão foi como se Deus arrancasse um véu dos olhos da multidão para contemplar a realidade e o horror da posição em que estavam. Nessa altura, o sermão foi interrompido pelos gemidos dos homens e gritos das mulheres, quase todos ficaram de pé ou caídos no chão. Foi como se um furacão soprasse e destruísse uma floresta. Durante a noite inteira a cidade de Enfiled ficou como uma fortaleza sitiada. Ouvia-se, em quase todas as casas, o clamor das almas que, até àquela hora, confiavam na sua própria justiça. Esperavam que, a qualquer momento, o Cristo descesse dos céus com os anjos e apóstolos ao lado, e que os túmulos entregassem os mortos que neles havia.

Tais vitórias contra o reino das trevas foram ganhas de joelhos. Edwards não abandonara nem deixara de gozar os privilégios das orações, costume que vinha desde a meninice. Continuou a freqüentar, também, os lugares solitários da floresta, onde podia ter comunhão com Deus. Como exemplo, citamos a sua experiência com a idade de 34 anos, quando entrou na floresta a cavalo. Lá, prostrado em terra, foi-lhe concedido ter uma visão tão preciosa da graça, amor e humilhação de Cristo como Mediador, que passou uma hora vencido por uma torrente de lágrimas e pranto.
Como era de esperar, o maligno tentou anular a obra gloriosa do Espírito Santo no “Grande Despertamento”, atribuindo tudo ao fanatismo.

Em sua defesa, Edwards escreveu:

Deus, conforme as Escrituras, faz coisas extraordinárias. Há motivos para crer, pelas profecias da bíblia, que sua obra mais maravilhosa seria feita nas últimas épocas do mundo. Nada se pode opor às manifestações físicas, como as lágrimas, gemidos, gritos, convulsões, e falta de forças... De fato, é natural esperar, ao nos lembrarmos da relação entre o corpo e o espírito, que tais coisas aconteçam. Assim falam as Escrituras: do carcereiro que caiu perante Paulo e Silas, angustiado e tremendo; do salmista que exclamou, sob a convicção do pecado: “Envelheceram os meus ossos pelo meu bramido durante o dia todo” (Sl 32:3); dos discípulos, que, na tempestade do lago, clamaram de medo; da Noiva do Cântico dos Cânticos, que ficou vencida pelo amor de Cristo, até desfalecer...”


Certo é que na Nova Inglaterra começou, em 1740, um dos maiores avivamentos dos tempos modernos. É igualmente certo que este movimento se iniciou não com os sermões célebres de Edwards, mas com a firme convicção deste de que há uma “obra direta que o Espírito divino faz na alma humana”. Note-se bem: não foram seus sermões monótonos, nem a eloqüência extraordinária de alguns, como Jorge Whitefied, mas, sim, a obra do Espírito Santo no coração dos mortos espiritualmente, que, “começando em Northampton, espalhou-se por toda a Nova Inglaterra e pelas colônias da América do Norte, chegando até na Escócia e a Inglaterra”. No meio de uma época da maior decadência, a Igreja de Cristo, entre a população escassa da Nova Inglaterra, despertou, e foram arrebatadas de 30 a 50 mil almas do inferno durante um período de dois a três anos.

No meio de suas lutas, sem ninguém esperar, a vida de Jônatas Edwards foi tirada da terra. Apareceu a varíola em Princeton e um hábil médico foi chamado da Filadélfia para inocular os estudantes. O nosso pregador e duas de suas filhas foram também vacinados. Na febre que resultou, as forças de nosso herói diminuíram gradualmente até que, um mês depois, faleceu.
Assim diz um de seus biógrafos: “Em todo o mundo onde se falava o inglês, era considerado o maior erudito desde os dias do apóstolo Paulo ou de Agostinho”.
Para nós, a vida de Jônatas Edwards é uma das muitas provas de que Deus não quer que desprezemos as faculdades intelectuais que Ele nos concede, mas que as desenvolvamos, sob a direção do Espírito Santo, e que as entreguemos desinteressadamente para o seu uso.


Fonte: Livro Heróis da Fé / p. 39-45
Autor: Orlando Boyer / Editora: CPAD
Postado por Flávio Teodoro