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domingo, 27 de maio de 2007

Sobre o Culto Cristão - Parte II

“De modo que, tendo diferentes dons, segundo a graça que nos é dada: se é profecia, seja ela segundo a medida da fé; se é ministério, seja em ministrar; se é ensinar, haja dedicação ao ensino; ou o que exorta, use esse dom em exortar; o que reparte, faça-o com liberalidade; o que preside, com cuidado; o que exercita misericórdia, com alegria”. - Romanos 12:6-8

D. Martyn Lloyd-Jones

Temos concordado que, quando lemos uma passagem como Romanos 12:6-8, convém que nos examinemos para ver se nos conformamos a ela ou não. A Igreja sempre deve fazer isso; a Igreja sempre deve estar “subordinada à Palavra” e deve estar sempre se reformando em conformidade com ela. Não há duvida de que muitos dos grandes problemas que têm afligido a vida da Igreja Cristã devem-se ao fato de que ela se esqueceu de fazer isso. O perigo sempre é o de simplesmente continuarmos a usar impensadamente modelos permanentes com os quais estamos acostumados, ou nos quais fomos criados.

Pois bem, para o povo cristão isso é sempre errado. Deixando de lado qualquer outra coisa, não é inteligente agir assim, e certamente não é espiritual. É o tipo de atitude que o Senhor condenou na mulher samaritana, como constatamos na narrativa sobre ela em João, capitulo 4. Se vocês não puderem provar que a sua tradição é escrituristica, será errado permanecer nela. De qualquer forma, devemos estar sempre dispostos a examinar-nos, bem como a examinar a nossa vida cristã em geral, segundo a Palavra de Deus, porque, gostemos ou não, estamos todos envolvidos nos atuais movimentos tendentes à unidade da Igreja, e todos nós temos algum tipo de decisão.

Como já vimos, há então a tendência cada vez maior, em todas as igrejas, de adotarem formas de culto litúrgicas, católico-romanas. Por exemplo, aqui, em Westminster, em Londres, na tarde da sexta-feira da paixão deverá ser realizada uma procissão com a participação de todas as igrejas. Devo restringir esse “todas”, porque esta igreja (Capela de Westminster) não vai estar envolvida, mas o que se espera é que todas as igrejas de Westminster se juntem numa procissão, que irá da Praça Trafalgar à catedral católico-romana, situada não muito longe daqui, onde uma reunião religiosa será realizada pelo cardeal Heenan, pelo bispo de Londres e pelo ministro metodista da Auditório Central de Westminster (“Westminster Central Hall”). Esse é o tipo de coisa que esta acontecendo, e é por essa razão que é nosso imprescindível dever, como cristãos, entender algo destas questões.

A Igreja da Inglaterra e a Igreja Presbiteriana, que têm mantido uma série de conversações, recentemente publicaram um relatório, e aqui vão algumas das coisas ditas por elas: “Nenhuma igreja, como existe agora, esta preparada e equipada adequadamente, quer em suas formulações teológicas, quer em suas formas de culto, quer em seus métodos de evangelização, para as tarefas pelas quais o Espírito santo a convoca para o futuro”, Elas dizem que é preciso considerar todas estas coisas, e no momento nós mesmos estamos considerando as formas de culto para o uso nas igrejas.

Em conexão com isso, eis outra declaração do referido relatório: “Os sinais são muito numerosos para que as denominações estejam cientes do julgamento da historia e da necessidade de encontrar novos modelos de vida, testemunho e serviço da Igreja”.
Queiramos ou não. Estamos envolvidos nisso tudo. Aí estão igrejas dizendo que elas precisam reexaminar tudo. Se estão dizendo isso, quanto mais nós devemos dizê-lo, especialmente quando de antemão sabemos que, embora elas falem em “examinar”, o que realmente querem dizer é que as igrejas livres devem reexaminar-se e adotar o tipo católico-romano de culto nas igrejas. Não há como questionar isso. Têm sido feitas declarações nas quais se pressupõe isso. Assim como governo da Igreja vai ser episcopal, assim também o culto será católico-romano, litúrgico, em sua forma. É por isso que devemos empenhar-nos estrenuamente para esclarecer nossas mentes e ter um verdadeiro entendimento destes pontos.

Falemos com clareza. Não estamos julgando ninguém. Não é esse o meu objetivo. Não estou interessando nem mesmo em julgar o tipo católico-romano de culto, porém estou interessado em examiná-lo, e em examiná-lo a luz das Escrituras. E nós devemos estar prontos a admitir e confessar que nós também corremos perigo. Todos nós desenvolvemos tradições, e pode muito bem acontecer que descubramos que não estamos em tão plena conformidade com o ensino das Escrituras como às vezes imaginamos que estamos. Vimos em nosso repasso da história que muitos homens e mulheres, com a melhor das intenções, afastaram-se do ensino escriturístico; e nós também ainda estamos na carne, e estamos sujeitos aos mesmos perigos.
Por conseguinte, agora, tendo examinado a questão historicamente, façamos a nós mesmos esta pergunta: qual é a impressão geral que vocês têm quando lêem o Novo Testamento? Isso é sempre importante. Há por vezes o perigo de perdermos de vista a floresta por causa das árvores, o perigo de concentrarmos tanto em textos particulares que esqueçamos o teor geral das Escrituras, a atmosfera ou o espírito do Novo Testamento como um todo. Como não temos nenhuma injunção especifica do nosso Senhor nem dos apóstolos para orações particulares ou para a direção do culto de maneira particular, esta atmosfera ou espírito geral torna-se correspondentemente muito mais importante.

Pois bem, eu penso que não pode haver dúvida, de que a espécie de culto prestado pela igreja do Novo Testamento é a indicada em três versículos. Aqui o apostolo, sem se propor a isso, incidentalmente descreve o que se fazia na igreja da cidade de Roma. Nos versículos correspondentes de 1 Coríntios, capitulo 14, lemos que quando a igreja se reunia para o culto, um membro trazia um salmo, outro uma profecia, etc. (versículo 26). E notem também Colossenses 3:16, onde Paulo nos informa que eles se admoestavam uns aos outros, cantando “salmos, hinos e cânticos espirituais” ao Senhor.
O meu argumento é, pois, que a impressão dada é de um culto livre e espontâneo. Na verdade, na igreja de Corinto este elemento de liberdade e de espontaneidade era tão evidente que levou a certa monta de desordem, e o apostolo teve de dizer-lhes: “Faça-se tudo decentemente e com ordem” (1 Coríntios 14:40). Mas, se vocês estiverem amarrados em seu culto a uma forma definida, não poderão ter desordem, tudo é controlado. Portanto, afirmo que o ensino do Novo Testamento acerca das desordens que estavam surgindo em certas igrejas é, em si e por si, uma prova de que o culto prestado pela Igreja do Novo Testamento era livre e espontâneo.
Todavia, em segundo lugar, vamos além desse ponto. Essa desordem é algo que seria de esperar, porque é coerente e conforme com o ensino da bíblia quanto à diferença existente entre o Velho e o Novo Testamentos. Bem, sobre este assunto devemos ser cuidadosos. Temos necessidade dos Testamentos, e, contudo, há diferença entre a nova dispensação e a velha. Temos o mesmo Deus, a mesma graça, e a mesma salvação. Como já vimos extensamente quando examinamos os capítulos 9, 10, 11, afinal de contas o cristão é filho de Abraão, que é o pai de todos os filhos da fé. Portanto, há uma identidade e continuidade entre ambas as dispensações, e, no entanto, há uma diferença.

Para mim este ponto é extremamente importante, porque há a possibilidade de se cometerem dois grandes erros com relação a esta questão, e muitos têm caído num ou noutro deles. Um é fazer o divorcio absoluto entre o Novo e o Velho Testamentos e afirmar que o Velho Testamento não tem nada que nos diga respeito, e que o Novo é inteiramente novo. Isso é um erro. Poderíamos provar facilmente que é um erro citando o Novo Testamente e mostrando como o Novo vê o Velho Testamento. Essa idéia errônea viola também o principio geral de que há uma só graça de Deus, um único meio de salvação, e somente uma aliança eterna de salvação.
Mas devemos estar cônscios do perigo oposto, de dizer que não há diferença entre o Velho e o Novo, com a falácia decorrente de governar o Novo pelo Velho Testamento. Esse é um perigo muito real para certas pessoas, em particular as que pertencem à tradição reformada. Eles sabem do valor do Velho Testamento, porém o perigo que correm é o de exagerar e sobrestimá-lo, e assim inclinar-se a controlar o Novo pelo Velho Testamento.

Pois bem, estou querendo que vocês vejam que isso é um erro, que há uma diferença entre o Novo e o Velho Testamentos, mas que é uma diferença em grau, não em espécie. Permitam-me ilustrar o que quero dizer. Alguns ficam perplexos ante algumas palavras que o nosso Senhor disse acerca de João Batista. Em Mateus 11:11 disse o nosso Senhor: “Em verdade vos digo que, entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João Batista; mas aquele que é menor no reino dos céus é maior do que ele”. Significaria isso que João Batista não deve ser considerado como salvo e como filho de Deus? Isso é patentemente errado. Qual será, então, a diferença entre João Batista e “o menor no reino dos céus”? Sugiro que é uma diferença, não em sua relação com Deus, nem em sua posição diante de Deus, e sim é, em grande parte, ema diferença em seu entendimento. Porque pertencia à antiga dispensação, João Batista ficava perplexo e incerto. Por outro lado, o cristão deve regozijar-se “com gozo inefável e glorioso” (1 Pedro 1:8) e encher-se de um grande espírito de certeza e segurança. Se vocês observarem João Batista e o contrastarem com os apóstolos no dia de pentecoste e depois, verão exatamente o que quero dizer.

Essa é, então, a diferença existente entre o Velho Testamento e o Novo. Entretanto, temos também a profecia de Joel, citada por Pedro em seu sermão do dia de Pentecoste, o que esclarece ainda mais o ponto. Os apóstolos e os demais foram batizados com o Espírito Santo e se tornaram um fenômeno. Alguns dos de Jerusalém, zombando, diziam: “Estão cheios de mosto” (Atos 2:13). E então nos diz o texto: “Pedro, porém, pondo-se em pé com os onze, levantou a sua voz, e disse-lhes: Varões judeus, e todos os que habitais em Jerusalém, seja-vos isto notório, e escutai as minhas palavras. Estes homens não estão embriagados, como vós pensais, sendo a terceira hora do dia. Mas isto é o que foi dito pelo profeta Joel” (Atos 2:14-16).
E que foi que Joel disse? Isto: “E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne” – não somente sobre certas pessoas especiais e seletas, seria em derramamento em profusão sobre toda a carne – “E os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão” – eles não profetizavam no Velho Testamento; alguns sim, mas em casos excepcionais; agora houve uma grande profusão – “Os vossos mancebos terão visões” – os que tinham visão sob a velha dispensação eram poucos e raros, os videntes e os profetas – “e os vossos velhos sonharão sonhos; e também do meu Espírito derramarei sobre os meus servos e sobre as minhas servas naqueles dias, e profetizarão; e farei aparecer prodígios em cima, no céu; e sinais embaixo, na terra” (versículos 17-19).

Ora, ai esta, certamente, a diferença essencial entre o novo e o velho, e ignoramos isso para nosso risco. Isso leva inevitavelmente a um diferente tipo de culto. Observem o culto como se realizava no Velho Testamento – o templo, o tabernáculo era mais ou mesmo essencial. Por quê? Bem, era um tipo externo de culto, com um sacerdócio para isso designado. Era muito formal. Eram dadas instruções sobre os utensílios e o mobiliário nos mínimos detalhes. Tudo era ordenado, tudo era prescrito com exatidão. E Deus, tendo dado instruções detalhadas sobre o tabernáculo de Moisés, disse-lhe: “Olha, faze tudo conforme o modelo que no monte se te mostrou” (Hebreus 8:5).
Contudo o Novo Testamento é inteiramente diferente; é um tipo interior, interno de culto; é livre e informal. O nosso Senhor sentava-Se num barco ou na encosta de um monte e Se punha a pregar. Ou pregava numa casa – em qualquer parte. Houve a mudança da esfera do formal e do externo para um tipo de culto vivo, vital, espiritual. E já não se deve reconhecer apenas certas pessoas como sacerdotes. Meus amigos, temos que lembrar-nos da Reforma Protestante – o sacerdócio universal de todos os crentes. É por isso que não andamos nessas procissões; não queremos voltar a nenhum sacerdócio. Cremos, asseveramos, o sacerdócio universal de todos os crentes. Como cristãos, somos um reino de sacerdotes, em “sacerdócio real” (1 Pedro 2:9).
É isso que eu quero dizer quando declaro que há uma diferença essencial entre o novo e o velho. Por isso, quando você lê sobre a espécie de vida de igreja revelada por versículos como estes de Romanos, capitulo 12, fica logo impressionado e diz: “Esse é o tipo de coisa que eu poderia esperar do cumprimento da profecia de Joel. É isso que eu esperaria como resultado do “derramamento”, em grande profusão, do bendito Espírito Santo de Deus”.

Passo agora a minha terceira razão para opor-me a uma forma de culto litúrgica de culto. Indiquei em minha revisão histórica que um dos argumentos para o estabelecimento de formas de culto era que essas eram essenciais por causa da ignorância e da incapacidade da maioria dos sacerdotes que se haviam tornado ministros protestantes. Eu admiti que esse argumento tem alguma força. Contudo, quero dar meu parecer a vocês que é um argumento que deve ser manuseado com muitíssimo cuidado, deste ponto de vista: o nosso Senhor não seria capaz de habilitar os homens? Não Lhe seria possível levantar homens e dar-lhes dons que os capacitem a realizar o culto, a orar, a pregar, etc.?
E, naturalmente, a resposta à minha pergunta é constituída pelos três versículos que estamos examinando. O nosso Senhor dá estes dons mediante o Espírito, e o Espírito os pode dar a qualquer pessoa. Essa é uma das realidades gloriosas que vemos no Novo Testamento, mas também concretizado muitas vezes durante a subseqüente historia da Igreja Cristã.

É óbvio que Deus concedeu dons e levantou homens nas primeiras igrejas. Procurem imaginar as condições daqueles dias. Havia os apóstolos e outros. Eles viajavam por toda parte e pregavam o evangelho. Muitos foram convertidos, e os apóstolos formavam igrejas com eles, e partiam. Que acontecia com as igrejas? Há uma resposta óbvia que, num sentido, já consideramos. Em cada igreja o Espírito concedia dons a diferentes homens, e eles ocupavam suas posições de acordo com esses dons. Houve eleição de anciãos ou presbíteros, e alguns deles se tornaram presbíteros docentes, porque lhes fora dado o dom de ensinar.

Pois bem, em anos recentes a Igreja vem se dando conta dessa verdade cada vez mais. Vejam os livros escritos por aquele excelente homem, Roland Allen, sobre St Paul’s Missinary Methods and Ours (A obra Missionária do Apóstolo Paulo – Seus Métodos e os Nossos) – penso que agora suas idéias são aceitas quase totalmente. Já em 1913 Roland Allen assinalava que as igrejas ocidentais tinham adotado um método errôneo em sua obra missionária. Os missionários iam para diversos países, havia conversões, e os missionários lá ficavam como seus ministros. Mas Roland Allen mostra que os apóstolos não agiam assim. Os ministros surgiam dentre as pessoas locais. Bem, eles não se levantavam por si. O Espírito lhes concedia os dons, e então lá se desenvolvia, das próprias igrejas, o tipo de ministro que era essencial a cada igreja. E dizer que isso não pode acontecer, e que portanto deve-se ter um ou dois homens que escrevam orações para que todos os demais leiam, é certamente uma censura ao poder de nosso Senhor de conceder dons ao seu povo e de prover dos necessário dons os Seus servos e ministros na vida da Igreja. Creio, pois, que é espiritualmente errôneo argumentar daquela forma, como também creio que é historicamente errôneo. Como eu disse, estou disposto a concedê-lo como um expediente temporário, e muito breve, mas não deve ter continuidade.

Permitam-me ilustrar isso. John Owen dizia que pedir aos homens que continuem lendo essas formas fixas perpetuamente é como ensinar um homem a nadar. Como no inicio o homem não pode nadar, você lhe dá o que chamamos bóia. Naquele tempo enchiam-se duas bexigas e estas eram amarradas ao homem. Quando ele entrava na água, as duas bexigas infladas o mantinham flutuando, possibilitando-lhe aprender as braçadas. Mas, como Owen assinalava, ele não ficava usando as bexigas para sempre – se não, nunca aprenderia a nadar. Aqui vai outra ilustração similar: se um homem quebra a perna, por um tempo terá que usar muletas, e isso esta certo. Todavia não deverá continuar a usá-las pelo resto da vida. De igual modo, as orações fixas são justificáveis como expedientes temporários, mas não devem ser usadas permanentemente.
Ou deixem que lhes fale sobre isso desta maneira – este é meu quarto ponto: certamente, criar uma liturgia escrita é, em última análise, o modo errado de encarar o problema da falta de dons. Mas vocês poderão perguntar: “O que tudo isso tem a fazer conosco?” “Isso não seria historia antiga?” Não é. Conheço igrejas em diferentes partes deste país onde não se permitem reuniões de oração nem outras reuniões quaisquer durante a semana à noite. Por quê? “Porque”, dizem-nos, “não há ninguém aqui que saiba orar”. Conheço igrejas que costumavam ter reuniões de oração bem freqüentadas e florescentes, e onde agora não existe nem uma só dessas reuniões. O povo diz: “Não temos ninguém capaz de orar, ninguém que possa fazer-nos uma palestra, ninguém que nos guie, ninguém com capacidade para isso”. Portanto, este problema é verdadeiramente um problema real e moderno.

Como, então, enfrentar tal problema? Bem, estou certo de que a maneira de enfrentá-lo não é providenciar um livro que qualquer pessoas possa ler. A maneira de enfrentar um problema como esse é levar a igreja a examinar-se e a dizer: “Por que nesta igreja ninguém sabe orar em público? Que é que acontece? O cristão moderno é diferente dos cristãos primitivos? Por que as pessoas não oram hoje como costumavam orar?” Enfrente isso dessa maneira, e diga: “Dobrem os seus joelhos e peçam a Deus que os perdoe”. Então, sem perceber, os membros já terão começado a orar. Simplesmente pedir perdão em público é orar. Portanto, o modo de encarar esse problema não é providenciar uma espécie de muleta permanente, mas arrepender-se e pedir a Deus que tenha misericórdia e faça chover Sua benção.

Aqui também há um principio de ampla aplicação. Vejo na Igreja moderna a tendência de repetir essa falácia em diferentes áreas, não com referencia a formas de oração. Por exemplo, a maneira pela qual uma ou mais igrejas enfrentam um período de ineficiência e aridez é muito diferente hoje do que se fazia em tempos passados. Hoje em dia, quando uma igreja se acha nessas condições, seus lideres resolvem chamar alguma organização evangélica para que venha pôr as coisas em ordem. Mas não era assim que se fazia. Houve tempo em que, quando na igreja não havia muita benção e poucas pessoas estavam sendo convertidas, os membros da igreja e seus lideres indagavam: “Por que as pessoas não estão sendo convertidas? “Que será que esta errado?” Eles diziam: “Por que foi que o Espírito de Deus nos abandonou? Designemos um dia de oração, humilhação e jejum. Compareçamos perante o Senhor e confessemos a Ele que estamos falhando em nossos deveres para com Ele. Roguemos-Lhe que nos mostre onde erramos e peçamos que ele volte a estar entre nós”. E continuavam fazendo isso até vir o avivamento. Certamente esse é o método bíblico, não recorrer a nenhum expediente de fora.

Permitam que lhes ofereçam mais uma ilustração prática do que estou querendo dizer. Deixem-me colocá-la em termos pessoais – perdoem-me isso. Tenho um grande problema. Quero passá-lo a vocês, e ficaria contente se vocês pensassem nele e de um modo ou de outro me dessem suas respostas. Enquanto falo, o que digo esta sendo gravado em fita, e isso é feito toda sexta feira e duas vezes cada domingo, e recebemos cartas de diferentes partes do país pedindo essas fitas. Eis o meu problema: devo permitir que essas fitas sejam enviadas? Há pregadores que permitem, mas em geral eu não permito. Por quê? O argumento que me apresentam é o seguinte: “Mas, pense nessas pessoas nos domingos, ou que talvez tenham pregadores que estão pregando contra a verdade. Não seria seu dever enviar-lhes as fitas?”
Mas eu tenho uma réplica, e se baseia no princípio que estou colocando diante de vocês. Receio que vamos acabar chegando a um estágio em que talvez tenhamos meia dúzia de pregadores neste país, e todos os demais fiquem ouvindo as gravações desses pregadores. Não é impossível. Há uma crescente tendência nesse sentido. E eu digo que isso é errado. Acaso o Espírito de Deus não pode conceder dons aos homens nessas igrejas? Por conseguinte, pode ser um perigo providenciar sermões pré- fabricados.

E esse é o argumento contra formas litúrgicas de culto. Já está tudo ali, e só lhes resta lerem as palavras. Um homem as prepara, e centenas, ou talvez milhares, as lêem. E me parece que essa prática tende a violar o ensino, tão claramente exposto nas Escrituras, segundo o qual o mesmo Senhor que pode levantar homens dentre os escravos e os servos do século primeiro certamente ainda pode fazê-lo. Mas parece que olvidamos o Espírito Santo e dizemos: “Mandem-nos fitas”, ou, “Forneçam-nos sermões”, ou, “Forneçam-nos orações”. Seguramente, isso não deixa de ser uma certa censura ao poder do Espírito de prover as pessoas necessitarias e os necessitados dons.
Permitam, porém, que eu passe ao meu quinto argumento. Não haveria nessa formas prescritas de culto algo que contradiz algumas claras afirmações presentes no Novo Testamento? Pode-se ver uma delas na entrevista do nosso Senhor com a mulher samaritana, em João, capítulo 4. Diz a mulher a Ele – e isso é típico do argumento apresentado – “Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar”. Isso, digo eu, é a velha dispensação, e aqui está a resposta do nosso Senhor: “Mulher, crê-me que a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai” – não há necessidade desses lugares estabelecidos; podemos tê-los ou não; não precisam limitar-se a isso – “Vós adorais o que não sabeis; nós adoramos o que sabemos porque a salvação vem dos judeus. Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é espírito, e importa que os que o adorem o adorem em espírito e em verdade” (João 4:20-24).

E se vocês lerem também em Atos, capítulo 7, verão que o mártir Estevão teve que desenvolver precisamente o mesmo argumento quanto se dirigiu àqueles judeus de “dura cerviz” que queriam restringir o culto à forma do Velho Testamento. Vejam depois outro exemplo, pelo qual já passamos em nosso estudo desta Epístola – Romanos 8:26,27 – “E da mesma maneira também o Espírito ajuda as nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de pedir como convém” – você não pode dizer isso, se confia em orações escritas, pode? Assim, quais são as provisões para nós? Orações preparadas por alguns grandes homens? Não, não – “mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que examina os corações sabe qual é a intenção do Espírito; e é ele que segundo Deus intercede pelos santos”. A resposta à nossa incapacidade não são orações adrede preparadas, é o Espírito. Pode ser um gemido, algo quase inarticulado, porém é oração – “com gemidos inexprimíveis”.
E há diversas exortações acerca da oração no Novo Testamento. Penso, por exemplo, nas palavras de Paulo no último capítulo da Epístola aos Efésios: “Orando em todo o tempo com toda oração e súplica no Espírito” (versículo 18). É assim que se ora. Não por meio de formas, mas sim “no Espírito”. O Espírito dará a você a oração, e lhe dará facilidade, poder e tudo o que você necessita. Por isso eu sinto que devemos considerar aqueles três textos com muita seriedade, sem aduzir mais nenhum, antes de chegarmos a uma decisão final sobre este assunto.

Mas, a seguir, o meu sexto argumento é que aqui há o perigo muito grave de interferirmos na liberdade que o Espírito tem de dar inspiração repentina, imediata. Posso ilustrar isso com a pregação. É um grande problema, que todo pregador deve ter enfrentado uma vez ou outra. Não somos todos igualmente dotados no que se refere à fala, e há alguns que parecem quase impossibilitados de pregar, se não escreverem cada palavra. O grande Dr. Thomas Chalmers realmente não conseguia pregar sem o seu manuscrito. Entretanto esse, parece-me, é um ponto muito importante. Não chego ao ponto de dizer que nunca se deve escrever sermão, não creio nisso, mas o que, sim, digo é que o pregador sempre deve estar livre. Quantas vezes eu vi pessoalmente que o que foi utilizado por Deus era algo em que eu nunca tinha pensado até o momento em que o proferi. Foi-me dado enquanto eu estava pregando, não quando estava me preparando. A liberdade do Espírito! Devemos ser muito cuidadosos, para não suceder que imponhamos limites à liberdade do Espírito. Se você estiver preso a um particular texto escrito, onde entra o Espírito?

São essas as coisas que temos a tendência de esquecer. Lembro que uma vez, há uns vinte anos, conversei com o então Diretor Religioso da BBC. Tivemos uma discussão sobre estas questões, e eu estava tentando explicar-lhe porque eu não pregava em seus programas. Coloquei a explicação na forma de uma pergunta: “Se de repente o Espírito viesse sobre o pregador, que aconteceria com os seus programas?” E ele admitiu que a pergunta era muito justa.
Mas, de novo, observem isto: Não correríamos o risco de fazer algo que seja antagônico ao avivamento? No avivamento há um elemento essencial de liberdade. Tem que haver uma oportunidade para o Espírito irromper. Sejamos cautelosos em nosso desejo de termos cultos “dignos” ou “nobres”. Essa tem sido a tragédia dos não conformistas. Em meados do século dezenove começou-se a falar em nobreza e cultura – e o não conformismo decaiu dali em diante. A prova de um culto não é se ele é “nobre” ou não, e sim se o poder do espírito esta nele ou não.
Por que será que faz tanto tempo que não há avivamento? Em parte a resposta não seria esta? Não se dá oportunidade ao Espírito Santo. Existe o perigo de extinguir ou apagar Espírito. John Owen, voltando a citá-lo, diz especificamente que, à luz dos versículos 6, 7 e 8 de Romanos, capítulo 12, recai sobre os cultos litúrgicos e as orações lidas a culpa de apagarem o Espírito. Mas, conquanto haja esse perigo, eu pessoalmente penso que o Dr. John Owen foi um pouco longe demais, porque o Espírito Santo é tão poderoso que pode até irromper em meio a um culto religioso lido. Ele fez isso muitas vezes. Um dos maiores pregadores que houve no Despertamento Metodista, em Gales, há mais de duzentos anos, foi um homem chamado Daniel Rowland, e o Espírito veio sobre ele quando ele estava lendo um texto sobre o culto da Ceia do Senhor no Livro de Oração Comum.

Mas há os que dizem: “E então, isso não justificaria o uso do Livro de Oração?” Não. Trata-se ai de uma exceção. O Espírito Santo pode entrar a despeito da nossa ação de apagá-lO, e a despeito das nossas formas que põem limites a Ele, mas isso não justifica a nossa persistência nesse procedimento. Há, pois, o perigo de limitarmos a liberdade do Espírito. Quantas vezes você ouviu falar que um avivamento irrompeu num culto realizado numa catedral? Esse é o teste.
E, por último, não seria um fato puro e simples que uma condição de baixa espiritualidade na Igreja Cristã sempre leva ao uso de formas? Quando os homens não conseguem pregar, começam a ler os seus sermões; quando não conseguem orar, começam a ler as suas orações. Baixa espiritualidade na Igreja sempre vai em direção ao tipo católico-romano de culto, com ênfase ao que denominam “a beleza do culto”, expressão com a qual em geral as pessoas se referem a “formas fixas de culto”, e isso vem acontecendo cada vez mais no século vinte. Em contraste, toda vez que há um avivamento, sempre ocorre um avivamento da oração extemporânea e da liberdade na realização do culto.

Pois bem, os evangélicos de todas as denominações sempre provaram isso. Os evangélicos que normalmente usam formas fixas de oração, sempre oram livremente e sem preparo prévio nas campanhas evangelísticas. Então, porque não procuram fazer a mesma coisa em todos os cultos realizados nas igrejas? Há uma contradição aí. Quanto mais evangélico o homem é, mais liberdade deseja e mais ele quer introduzir orações extemporâneas em sua tarefa oficial, mesmo que signifique romper a lei. O evangélico que tem em si o Espírito, inevitavelmente será livre e se expressará livremente, com todas as veras do seu espírito.
Vou deixá-los neste ponto apenas com uma pergunta que, ao que me parece, é uma extensão do argumento que venho elaborando com vocês. Porventura não entra aqui também a questão geral dos hinos? Há pessoas que dizem que não deve cantar hinos, e sim somente salmos. Haveria salmos adequados a dar expressão à plenitude da experiência do Novo Testamento? Podem os salmistas, que só viram estas coisas “de longe”, expressar plenamente o que sentem, experimentam e pensam aqueles que conhecem a salvação toda na plenitude do Espírito? Sugiro-lhes que devemos reexaminar cuidadosamente e com muita seriedade toda essa área do culto, para que não limitemos a nova dispensação pela velha. Você pode tornar-se legalista e literalista, e isso é sempre errado. Portanto, penso que os princípios que estivemos discutindo aplicam-se também aos hinos.

E assim, de novo, vocês verão que em todos os grandes períodos de movimentos do Espírito, de marés do Espírito sempre ocorre um irrompimento da composição e do canto de hinos e melodias evangélicos. Cantar sempre foi uma das grandes características de um genuíno movimento do Espírito de Deus. Somos informados de que nos primeiros tempos dos “Separatistas”, no reinado da rainha Elizabete, alguns foram tão longe que chegaram a proibir cantar. Eles diziam que até cantar salmos era um erro. Mas logo se corrigiram a esse respeito. O Velho Testamento nos ensina a cantar, e a cantar salmos. Contudo, obviamente, acima e além disso, no Novo Testamento os crentes começaram a cantar hinos e “cânticos espirituais” (Colossenses 3:16), os quais evidentemente eram dados pela inspiração do Espírito. E esta, reitero, tem sido uma característica da igreja em todos os grandes períodos de avivamento e de vivificação, quando uma nova vida entra nas pessoas mediante as operações do Espírito, em Sua graça.
Povo cristão, voltemos a orar abertamente no Espírito, e roguemos a Ele que nos ilumine, nos dirija e nos guie. Examinemos tudo o que somos e tudo o que fazemos, as nossas formas de culto como também a nossa fé e o nosso governo eclesiástico, à luz do ensino das Escrituras. Queira Deus abençoar-nos nesse propósito, abençoar-nos individual e coletivamente.


Fonte: Livro O Comportamento Cristão
Autor: D. Martyn Lloyd-Jones
Exposição de Romanos Capitulo 12
Capitulo 23 p. 386-402 / Editora PES

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Sobre o Culto Cristão

D.Martyn Lloyd-Jones


“De modo que, tendo diferentes dons, segundo a graça que nos é dada: se é profecia, seja ela segundo a medida da fé; se é ministério, seja em ministrar; se é ensinar, haja dedicação ao ensino; ou o que exorta, use esse dom em exortar; o que reparte, faça-o com liberalidade; o que preside, com cuidado; o que exercita misericórdia, com alegria”.

Romanos 12:6-8



Fizemos as nossas considerações destes versículos de Romanos e o nosso breve repasso e visão panorâmica da historia da Igreja tendo como pano de fundo muita prosa sobre a unidade da Igreja. O nosso objetivo foi certificar-nos de que a única unidade que nos interessa é a que reproduz o modelo que se acha no Novo Testamento. Temos que examinar cada proposta, cada tentativa de unidade à luz deste ensino. Não adiante partir das coisas como estão e modificar um pouco aqui um pouco ali – a igreja católica romana com um pequena modificação, a Igreja da Inglaterra com uma pequena modificação, etc., até chegarmos a uma grande igreja que continuará mantendo a maior parte das características de todos os diferentes segmentos que estão sendo amalgamados.Não é desse modo que vemos as coisas. Dizemos que devemos examinar tudo à luz do ensino do Novo Testamento; e, assim como o povo em geral esta interresado em unidade, nós, evangélicos, dentre todas as pessoas, devemos nos interessar-nos por ela. A Igreja deve ser uma só, e deve ser vista como uma só, certamente o chamamento feito a nós é que devemos manifestar o tipo de unidade descrita no Novo Testamento, e asseverar que essa, e somente essa, é a Igreja Cristã, em contraposição a toda e qualquer imitação produzida pelos homens.


Mas ainda ficamos com um problema, ou melhor, com mais um aspecto dessa questão. A Igreja, como a conhecemos, não só é diferente da Igreja do Novo Testamento em sua ordem, em seu governo, porém há também uma grande diferença entre o seu modo de conduzir o culto, a adoração, e a maneira pela qual o Novo Testamento expressa a adoração. Aqui, nestes versículos, é-nos dado um quadro, um pequeno camafeu, do tipo de coisa que aconteceu na Igreja Primitiva. Várias vezes os fiz lembrar de uma passagem similar, de1 Coríntios, capítulo 14, onde o apóstolo diz, no versículo 16: “Que fareis pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação. Efésios 5:19 também nos dá uma descrição da igreja: “Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração”. Tais descrições nos propiciam a percepção do tipo de culto característico da Igreja Primitiva.
Assim pois, mais uma vez, se formos leitores inteligentes das Escrituras, obviamente teremos que perguntar a nós mesmos: o nosso culto corresponde ao daquelas descrições, e, se não, por que não? E como foi que mudamos do que vemos lá para o que conhecemos hoje? Quero ressaltar a imensa importância de fazer estas perguntas. Os evangélicos, parece-me, muitas vezes se dedicam a fazer algum tipo de leitura da Bíblia ou de estudo bíblico, qualquer que seja o nome que lhe dermos, muitos defeituoso. Contentamo-nos com uma espécie de conhecimento da letra das Escrituras, e nem sempre procuramos atentar para a doutrina, extraí-la, e ver a sua relevância para nós.


O culto, como era realizado pela Igreja Primitiva, exige a nossa atenção porque tem muita coisa pra nos dizer. Hoje há uma crescente tendência para o que é descrito como um estilo litúrgico de culto, com vestes sacras, como lhes chamam, e com o comportamento de toda a parafernália de atavios e paramentos. Pois bem, penso eu que isso esta ocorrendo em muitos segmentos da Igreja Cristã. Durante os últimos trinta ou quarenta anos venho observando uma crescente tendência de modificar os cultos nas chamadas igrejas livres, introduzindo orações e responsos fixos, e ritos formais em torno da mesa da Ceia do Senhor, do batismo, etc. As igrejas livres imitaram o que viram na Igreja Anglicana e, como lhes mostrarei, a Igreja Anglicana, por seu turno, tomou grande parte da sua liturgia da igreja católica romana. Em tempos recentes, grande ímpeto tem vindo de tudo o que se vê na televisão e de tudo o que é publicado nos jornais.


Essa é a situação, portanto devemos perguntar: onde essa forma de culto se acha no Novo Testamento? Como compará-la, por exemplo, com o que vemos nestes três versículos de Romanos, capitulo 12? Noutras palavras, parece-me que no presente ocorre mais uma vez, de forma aguda, uma disputa que se deu muitas vezes na Igreja. Há uma grande divisão entre o que por vezes chamam de “religiões de autoridade” e “religiões do Espírito”. Ou, se vocês preferirem, há uma vital diferença entre o tipo católico-romano de culto e o tipo de culto verdadeiramente protestante. Há toda a diferença do mundo entre o culto que depende mormente de cerimônias e ritos, e o tipo simples de culto, que exalta a liberdade do Espírito.


Ora, se você se sente inclinado a perguntar: “Que é que isso tem a ver comigo?”, tudo o que digo é que você não conhece o Novo Testamento. Isso é tudo o que se pode fazer com você. Se você realmente crê que o Novo Testamento é a Palavra de Deus, deve realmente preocupar-se com o culto, e, goste ou não, como já lembrei a todos vocês, será compelido a tomar decisões justamente sobre estas questões. Se não enxerga a tendência geral em direção a Roma, receio que você só pode estar cego.
Isso esta avançando, e avançando muito rapidamente. A proposta de que haja uma só igreja neste país – e essa é a proposta – diz-nos que a igreja deverá ser episcopal em seu governo e liturgia em sua forma de culto, e muitas pessoas se sentem muito felizes em aceitar isso. O objetivo supremo é ter uma grande igreja mundial que inclua a igreja de Roma, ou melhor, a igreja de Roma incluindo todas as demais. E assim você estará comprometido com um tipo litúrgico de culto.


Portanto, a questão é: vocês querem isso? Crêem nisso? Consideram certo? E essa é a questão levantada para nós por estes três versículos, porque neles temos uma descrição do culto característico da Igreja do Novo Testamento. Por isso mais uma pergunta: isso é um ponto vital, ou é apenas uma questão de gosto? Muitíssimas vezes, através dos anos, tenho ouvido pessoas dizerem – e me sinto mal com isso – “A linguagem da litania é tão bonita! Cranmer era um mestre no uso da língua, e ele empregava uma espécie de linguagem litúrgica; e as orações são tão belas!” Ouve-se esse argumento frequentemente, tanto entre as pessoas das igrejas livres como entre os anglicanos.
Esta é a pergunta que faço: a nossa forma de culto deve ser decidida pela tradição, ou o Novo Testamento deve ser o nosso padrão? Bem, não devemos abordar essa pergunta meramente em termos de preconceitos – isso é sempre errado. Não devemos dizer que nos opomos a estas coisas porque não fomos criados nessa tradição. E os outros não devem dizer: “Isto é certo porque é nossa tradição”. Todos nós somos chamados a examinar tudo à luz do Novo Testamento. Para nós nada importa, exceto a pergunta: é certo? E descobrimos se é certo ou não vindo ao tribunal das Escrituras do Novo Testamento. Está de acordo com ela?


Agora, neste ponto, há uma importante questão de principio que eu devo colocar diante de vocês. Vocês saberão que no tempo da Reforma Protestante aqueles homens de fé que naquele tempo foram levantados, em geral concordavam em que o Novo Testamento é a única e suprema fonte de autoridade. Mas eles eram propensos a diferir entre si num ponto muito importante, qual seja: em que sentido o ensino do Novo Testamento é obrigatório? E aí emergiu uma divisão entre Martinho Lutero e João Calvino, e não somente entre esses dois grandes homens, mas também entre dois segmentos da Igreja na Inglaterra.


Martinho Lutero ensinava que as Escrituras são a autoridade absoluta em todas as questões de doutrina com respeito à salvação, mas que, quanto ao governo da Igreja ou às formas de culto, o ensino do Novo Testamento não é obrigatório. Ele dizia que é permitido à sabedoria da Igreja produzir uma forma de culto e, na verdade, uma forma de governo da Igreja. Contudo, Calvino adotou um conceito muito diferente. Ele dizia que as Escrituras não são obrigatórias só em pontos como a doutrina da salvação; são igualmente obrigatórias, e devem ser a nossa única regra, com relação ao governo da Igreja e também às formas de culto.


Ora, no que se refere à Grã-Bretanha, a Igreja da Inglaterra seguiu Lutero. A Igreja da Inglaterra sempre ensinou que, embora as Escrituras sejam obrigatórias nas questões da salvação, não são obrigatórias nas questões de governo da Igreja e do culto. Mas surgiu neste país outro grupo de crentes que finalmente se tornaram conhecidos como puritanos, e, dentre os puritanos, um grupo que podemos descrever como “puritanos radicais” seguiu o ensino de Calvino. Vemos, pois, aí dois corpos de pessoas que eram, todas elas, crentes na infalibilidade das Escrituras e em sua inspiração singular, e que chegaram a conclusões divergentes com relação ao governo da Igreja e às formas de culto.

Registrei isso para orientação de vocês, e meu desejo é que examinem toda esta situação de maneira desapaixonada. Não devemos deixar-nos governar por preconceitos, gostos e aversões; devemos fazer de fato um grande esforço para chegar a uma opinião verdadeiramente razoável à luz do que aconteceu na historia da Igreja.

Por conseguinte, vamos primeiro às Escrituras. Teríamos nós algum ensino ministrado por nosso bendito Senhor quanto a esta questão? O nosso Senhor prescreve orações lidas ou recitadas? Teria ensinado Ele que devemos prestar nosso culto com a mesma linguagem e com as mesmas palavras, como fazem aqueles que usam o mesmo Livro de Oração todos os domingos? Que é que se pode provar em termos do ensino de nosso Senhor e Salvador?
Naturalmente, o exemplo apresentado por aqueles que acreditam em forma litúrgica de culto e a Oração do Senhor (Pai Nosso). Eles assinalam que o nosso Senhor disse aos Seus discípulos: “Quando orardes, dizei...” (Lucas 11:2). “Ei-lo aqui”, dizem eles, “compondo uma oração com a intenção que a repitam”. E daí, compilaram seus livros de oração e repetindo essas orações domingo após domingo, eles dizem que estão simplesmente fazendo o que o nosso Senhor e Mestre primeiramente ensinou à Igreja.


É obvio que isso deve ser examinado; é o único verdadeiro fragmento de evidência que eles podem apresentar. Como lidar com esse argumento? Pois bem, isso tem sido tratado muitas vezes; foi respondido por muitos dos principais puritanos, por homens como o Dr. John Owen e outros, e eu vou mostrar-lhes os argumentos que eles sempre apresentavam e que me parecem inevitáveis, partindo do estudo das Escrituras. Que foi que o nosso Senhor fez quando disse aos Seus discípulos, “Quando orardes, dizei...”?
Bem, certamente a Oração do Senhor (Pai Nosso) deve ser considerada uma oração modelo. O nosso Senhor não disse que devemos repetir esta oração mecanicamente toda vez que orarmos. Se consultarmos Lucas 11:1,2, leremos que os discípulos se aproximaram dEle e disseram: “Senhor, ensina-nos a orar, como também João ensinou aos seus discípulos”. Eles estavam em dificuldade quanto a orar. Não nos surpreendamos com isso; todos nós temos experimentado a mesma dificuldade. A oração pode ser muito difícil. Assim eles fizeram o seu pedido, e o nosso Senhor respondeu: “Quando orardes, dizei...”. Certamente o que Ele quis dizer foi: é desse modo ou neste estilo que vocês devem orar.


Noutras palavras, sempre se deve começar com adoração: “Pai nosso, santificado seja o teu nome...”. Não se deve começar fazendo petições e apresentando desejos, mas sempre pela adoração a Deus. O nosso Senhor estava instruindo os Seus seguidores sobre os grandes princípios da oração; e o primeiro é que devemos sempre recordar e compreender que na oração nos aproximamos do Deus todo-poderoso e eterno. Antes de tudo mais, devemos prestar a Ele adoração e culto. Devemos desejar a vinda do Seu reino, e devemos aspirar a que toda a Sua vontade seja feita, “como no céu, assim na terra”, etc. Só então devemos passar aos pedidos e desejos pessoais.

Portanto, o nosso Senhor estava dizendo, “deste modo”, “neste tipo de maneira”. Ele não estava compondo uma oração para ser repetida mecanicamente por Seus discípulos, nem sequer em espírito. Ele estava interresado em estabelecer os princípios, as idéias gerais, que eles deveriam empregar na ordenação das suas orações. Essa é a primeira resposta ao argumento que baseia o uso de liturgias e litanias no fato de que o nosso Senhor nos deu a Oração do Senhor (Pai Nosso).


Mas, em segundo lugar, o relato que nos é dado no capítulo seis do evangelho Segundo Mateus por certo indica claramente que o nosso Senhor estava tratando ali mais do culto particular do que do culto público. Ele fala que devemos ir para o nosso quarto, fechar a porta e orar em oculto, e diz: “E teu Pai, que vê secretamente, te recompensará” (Mateus 6:6). E esse me parece um argumento muito forte.
Em terceiro lugar, Owen assinala – e penso que se pode dizer muita coisa em favor disto – que, em todo caso, mesmo que o nosso Senhor estivesse ditando uma oração para os Seus discípulos repetirem, Ele realmente estava falando sob a dispensação do Velho Testamento. Tudo isso foi antes da Sua morte; antes do Pentecoste. E como se vê uma espécie de ritual de cerimonial no Velho Testamento, o nosso Senhor estava apenas mostrando como eles deveriam orar na situação em que eles estavam naquele tempo. Penso no risco de exagerar nisso, porém nos limites próprios em que fica esse argumento, há algo valido no que Owen diz.
Mas – e este argumento é certamente final e conclusivo - mesmo concedendo que o nosso Senhor ditou essa oração com a intenção de que a repitamos palavra por palavra, como tantos de nós nos inclinamos a fazer em nossos cultos – mesmo concedendo tudo isso, como justificaria isso a repetição de orações fixas domingo após domingo? Afinal de contas, a Oração do Senhor foi proferida pessoalmente pelo Senhor, ao passo que as orações utilizadas nos livros de oração são composições de homens de diferentes séculos, diferentes tradições, etc. Portanto mesmo que se possa justificar a recitação do Pai Nosso, certamente isso não dá direito a ninguém de ir além desse ponto e dizer que se deve repetir todo domingo todas as orações compostas, escritas e impressas.

Essa é, então, a única prova que remotamente pode ser aduzida como base no ensino do nosso Senhor e Salvador. Contudo, que dizer dos apóstolos? Pois bem, aqui eu penso que todos concordarão que não há nenhuma prova, nem da prática nem do ensino dos apóstolos, de que eles criam em orações formais, fixas. Eles não repetiam orações; suas orações variavam conforme as circunstâncias. Eles não preparavam orações para depois ensiná-las ao povo; eles nunca deram instruções às pessoas no sentido de repetirem orações particulares. Claro está que isso tudo é, em si e por si, e em muitos aspectos, o argumento mais significativo.


Essa é, então, a prova existente, no que se refere ao Novo Testamento. Que dizer da subseqüente história da igreja? E dos primeiros séculos? Pois bem, isto é extremamente interessante. Não há nada que demonstre que nos três primeiros séculos alguma coisa remotamente parecida com um livro de oração era utilizado. Os cristãos do século primeiro não tinham cultos litúrgicos. Estes apareceram pela primeira vez no século quarto, e há uma prova que parece muito boa de que isso ocorreu num lugar que conhecemos bem, um lugar chamado Antioquia.

Permitam-me ler para vocês alguns argumentos comprobatórios extraídos dos escritos do grande pai da Igreja, Tertuliano, que viveu por volta do ano 200 d.C. Eis como ele descreve a forma de culto que lhe era familiar. Diz ele: “Eles oram olhando para o céu; não como os idolatras, que olhavam para os seus ídolos e imagens; não abraçando altares e imagens, como faziam os pagãos; não fazendo como aqueles que repetem suas orações acompanhando os seus sacerdotes ou sacrifícios, mas derramando as nossas orações concebidas em nosso peito”.


Isso é muito importante e muito significativo! Não é? Tertuliano contrasta a prática cristã com a dos pagãos, os quais “repetem as suas orações acompanhando os seus sacerdotes ou sacrifícios”. Em contraposição a isso, ele descreve os cristãos “derramando as nossas orações concebidas em nosso peito”, prática que, sugiro-lhes, está em inteira conformidade com o ensino do Novo Testamento.

E agora outra citação de Tertuliano. Falando como uma pessoa era recebida na Igreja Cristã, ele diz: “Depois que o crente que se une a nós é lavado dessa forma, nós o levamos aos que são chamados “Irmãos”, levamo-lo para onde eles estão reunidos, para fazerem suas orações e súplicas por si e por aquele que foi recentemente iluminado”. Que tipos de orações eram essas? “Estas orações e súplicas”, ele acrescenta, “o Presidente da Assembléia (notem a expressão) derrama conforme a sua capacidade”. Ele não lê orações fixas, porém derrama suas orações “conforme a sua capacidade”. E diz Tertuliano: “Ele realiza esta obra amplamente”. Noutras palavras, ele prossegue em seu longo trabalho de elevar louvores a Deus e em nome de Jesus Cristo. No entanto, a frase relevante é: “ele derrama conforme a sua capacidade”, e a capacidade varia de caso a caso, de homem a homem, nesta questão de derramar orações do coração.

Então, como foi que as orações fixas entraram na Igreja Cristã no século quarto? Bem, essa forma de culto entrou muito gradativamente. Primeiro em Antioquia; depois começou a aparecer noutros lugares, mas nem todos os cristãos tinham as mesmas orações. Algumas foram compostas por um homem em Antioquia, outro homem noutro lugar teria composto outras orações, e eventualmente isso começou a acontecer na igreja de Roma. Mas ela esta longe de ser a primeira.

Contudo, quando aconteceu o grande evento a que fizemos referência, quando o imperador Constantino e o Império Romano entraram na Igreja, eles então, naturalmente, assumiram tudo isso. E quando assumiram pleno governo da Igreja, fizeram exatamente a mesma coisa com as formas de culto. Padronizaram tudo, determinando que as mesmas orações fossem feitas em toda parte. Isso só por si mostra que no principio elas não existiam. Havia uma liturgia em Antioquia, uma liturgia diferente em Alexandria, e assim por diante. Mas Roma deu cabo disso. Todo o mundo, e em toda parte, devia fazer as mesmas orações. E estas tinham que ser feitas na mesma língua, em latim. Naturalmente, isso foi mudado no presente, e é uma concessão interessante, porém o principio ainda permanece.

E, ao mesmo tempo, Roma não só padronizou as orações, mas também começou a introduzir várias outras inovações – vestes, por exemplo, os hábitos usados pelos chamados “sacerdotes”. Eles tomaram emprestada a maior parte do seu ritual das religiões de mistério pagãs. Não há dúvida sobre isso: não é teoria minha. Essa era a política. Os lideres daquela igreja pegaram o que consideravam ser de melhor nas religiões pagãs. A isso é que o povo estava acostumado. Em todas as religiões pagãs sempre houve, e ainda há, muita vestimenta e muita cerimônia. Pois os lideres da igreja se apropriaram disso tudo e disseram que tinham “batizado” essas coisas na Igreja Cristã. Eles assinalaram que sob a dispensação do Velho Testamento Arão vestia-se com diversas e complexas vestimentas, Arão e os demais sacerdotes, e dessa maneira introduziram todas estas vestes, que continuam sendo utilizadas.
Por conseguinte, se foi assim que as vestes e o culto litúrgico entraram na Igreja, a questão é: por que será que alguém pensou em fazer tudo isso? Por que começou em Antioquia? Pois bem, devemos de fato considerar isso cuidadosamente. Houve duas razões principais – vou tentar expor o argumento em prol das liturgias tão justamente quanto eu puder. Não quero dar a impressão que isso foi feito pelo capricho de alguém. Havia o que se consideram como sendo dois argumentos muito fortes.

O primeiro era que muitas vezes os ministros, os sacerdotes, seja qual for o designativo, eram ignorantes e incapazes de fazer orações. Devido serem frequentemente homens muito mal instruídos, viam-se em dificuldades. Por isso acolhiam muito bem a provisão de orações.
Todavia, em segundo lugar, e isto é ainda mais importante, sempre havia o perigo de ensino herético – como já vimos anteriormente na questão do governo da Igreja. Por isso os homens que tinham idéias heréticas e que ocupavam posição de liderança tinham muito cuidado quando pregavam, pois sabiam que eram observados, e a tendência deles era de introduzir as suas heresias em suas orações. Às vezes as orações são sermões, não orações. Provavelmente todos nós somos um tanto culpados disso, de vez em quando, e devemos estar sempre vigilantes quanto a isso. Ora, alguns daqueles mestres heréticos deliberadamente introduziram ensino errôneo por meio de suas orações públicas, e, enquanto todos os homens tivessem liberdade de fazer orações extemporâneas, nada se poderia fazer a respeito.

Mas, como já vimos, a igreja católica romana, como o Império Romano, sempre foi ávida de disciplina e sempre quis padronizar tudo. E, concordemos, claro está que o problema de disciplina é importante, e algo tem que ser feito com relação aos hereges. Assim, depois que o Império Romano se declarou cristão, decidiu-se que o único meio de lidar com a heresia era prescrever as orações, estabelecê-las fixamente, e determinar que essas orações, e somente essas, eram as orações que se deviam fazer. E dessa maneira se esperava que o culto verdadeiro fosse preservado e o perigo da introdução do ensino herético por meio das orações fosse eliminado. Então, se queremos ser generosos, podemos conceder que o motivo era bom.

Sim, mas isso acabou levando ao sistema romanista pleno e completo, com todo o seu ritual e o seu cerimonial – grandemente elaborado, claro, sobre a questão da Ceio do Senhor e do batismo. E depois foi levantada a questão de outros sacramentos, e passou a haver uma liturgia correspondente em cada caso, sendo elaboradas declarações para cada um deles. Tudo isso veio a ser uma imensa organização, num sentido, com sua liturgia complicada. Esse foi o procedimento típico da igreja católica romana durante toda a Idade Média. O culto inteiro era conduzido pelos sacerdotes, e o povo ficava em seu lugar à distancia, muitas vezes sem entender nada do que estava sendo dito. Mas isso não importava, o que importava era o que os sacerdotes faziam, e o povo ficava longe, não tomava parte, exceto nalguns ocasionais responsos que eram indicados na liturgia.
Isso então nos traz ao tempo da Reforma Protestante. Certamente isso também deve ser de grande interesse para todos nós, sob todos os pontos de vista. É importante saber por que as tradições nas quais fomos criados são como elas são, porém ainda mais importante, reitero, é saber o que devemos pensar, dizer e fazer nesta época de mudança e de transição. Que aconteceu na Reforma? Novamente, é muito interessante observar que Lutero apropriou-se de muita coisa que tinha sido feita por Roma. É óbvio que ele corrigiu as coisas que ele vira que eram completamente erradas, mas o seu interesse primário era pela grande doutrina da justificação pela fé somente. Como já vimos, ele acreditava que o ensino do Novo Testamento não era obrigatório quanto ao governo da Igreja e às formas de culto. Assim foi que ele se apropriou de grande parte do tipo católico-romano de culto.


Pois bem, Calvino é interessante nesta questão, e ele é freqüentemente mal entendido neste ponto. Muitos de nós, na Grã-Bretanha, particularmente os interessados no ensino puritano, têm a tendência de pensar que os conceitos de Calvino eram os mesmos dos puritanos. Entretanto não eram, de modo algum! Calvino acreditava em ter liturgia e acreditava em orações fixas, embora permitisse mais liberdade para a oração extemporânea do que a igreja católica romana jamais havia permitido, e, na verdade, mais do que na Igreja da Inglaterra jamais permitiu. Isso é tão somente um fato da história. Sejam cautelosos em seus argumentos, para não suceder que usem erroneamente o nome de Calvino. Há um sentido em que se pode afirmar que, na questão do culto, a Igreja da Inglaterra está mais perto de Calvino do que alguns dos puritanos.

Passando ao caso da Inglaterra, chegamos ao nome de Thomas Cranmer, o homem que compôs o Livro de Oração da Igreja da Inglaterra, e ele fez mais ou menos o que Lutero tinha feito na Alemanha. Ele não pôs fora o que havia de liturgia e de livro de oração, mas, ao contrário, assenhoreou-se da idéia, e igualmente se livrou de todos os erros do catolicismo romano. Assim foi que ele compôs aquelas orações que – admitamos prontamente – são obras primas, do ponto de vista literário. Isso não nos preocupa. Podemos admitir que são obras – primas, e que ele tinha uma extraordinária facilidade na questão de produzir orações escritas.


Mas o que é importante perguntar é: por que será que Cranmer fez isso? Por que decidiu ter um livro de oração e perpetuar o tipo católico romano de culto? E de novo devemos ser justos e reconhecer que este homem, e os que com ele estavam, defrontavam-se com alguns problemas muito especiais – é sempre nosso dever, como pensadores honestos, levar em conta as circunstâncias em que estavam os homens quando tomaram suas decisões, para não sermos injustos em nosso julgamento – e o maior problema que Cranmer enfrentava era o problema do clero ignorante. Os clérigos, em sua maioria, tinham sido criados como católicos romanos, e ignoravam as Escrituras. Muitos deles também eram vazios de qualquer experiência espiritual. Eles tinham passado para o protestantismo por um espírito de temor, por conveniência, e por várias outras razões que tais pessoas têm para mudar de lado. Assim, aqueles homens mudaram de lado no tempo de Henrique VIII, depois voltaram ao catolicismo romano no tempo da rainha Maria, e tornaram a voltar de lá no tempo de Elizabeth. Muitos homens do mesmo jaez fizeram a mesma coisa nos tempos de Oliver Cromwell, da Comunidade e da Restauração. Vigários de Bray, mudando conforme o clima político!


Assim é que Cranmer teve que se defrontar com tais pessoas, mas, deixando de lado o seu estado espiritual, esses homens eram de fato ignorantes, e um dos argumentos aventados era que havia necessidade de provê-lo de orações. Eles não sabiam orar, e, se os rebanhos por eles conduzidos deviam ser ajudados de algum modo, era seu dever prover tais ministros de orações que eles poderiam ler com o povo no culto.
Em acréscimo a isso, e este ponto também é importante, tentemos imaginar a situação de mais de quinze séculos de catolicismo romano! O sistema entranhou-se no sangue e nos ossos das pessoas. Estas nunca tinham ouvido nem pensado outra coisa. Subitamente ocorre esta explosão da Reforma Protestante. Ora, os lideres do protestantismo na Inglaterra criam na grande doutrina da justificação pela fé somente. Mas o povo não via isso claramente, e um dos argumentos que Cranmer usava era, como praticamente ele dizia: “Se agora devemos mudar não somente a nossa doutrina da salvação, como também toda a forma de culto, vamos perder todo o povo e vamos perder tudo. O que importa”, dizia ele, “é que o povo esteja certo na doutrina da salvação – a justificação pela fé somente. Os estilos de culto são indiferentes, e podemos continuar com a forma de culto existente até que tenhamos um povo verdadeiramente instruído”.


Pois bem, penso que se pode dizer algo em favor desse argumento. Como recurso temporário, como expediente temporário, certamente não só há muita coisa que se pode dizer por ele como também opino que no Novo Testamento há uma justificativa para isso numa coisa que os apóstolos e os anciãos fizeram. Consideramos anteriormente o que aconteceu no Concílio de Jerusalém, fato registrado em Atos, capítulo 15, e vocês lembram qual foi a decisão a que chegaram naquela reunião? Houvera um problema muito real porque os gentios estavam entrando na Igreja e os judaizantes estavam dizendo que eles precisavam ser circuncidados e sujeitar-se à lei. “Não”, disse aquele concílio em sua sabedoria, guiado pelo Espírito Santo. “Na verdade pareceu bem ao Espírito Santo e a nós, não vos impor mais cargo algum, senão estas coisas necessárias: que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da prostituição” (Atos 15:28,29). Eles lançaram isso como um princípio.


Pois bem, isso não se aplica mais a nós. Não nos abstemos do sangue nesse sentido. Essa foi uma decisão para um período de transição, para evitar um conflito. Ele s disseram: deixaremos bem claro aos gentios que eles na tem que sujeitar-se à lei, mas, para tornar mais fácil a convivência de judeus e gentios cristãos, apelaremos aos gentios para que se abstenham destas coisas particulares por algum tempo.

Estou opinando, pois, que Cranmer e os outros foram motivados pelo mesmo tipo de argumento. “Aí estão as pessoas tão acostumadas com esta forma de culto – bem, não as escandalizaremos desnecessariamente, sejamos claros sobre a nossa grande doutrina da salvação, porém façamos esta concessão: Continuemos a usar a liturgia, livremo-nos dos acréscimos e erros católicos – romanos e façamos dela uma liturgia pura e verdadeira. Essa é uma boa medida temporária”. E eu estou disposto a conceder que, como medida temporária, foi justificável.

Ora, procurem voltar mentalmente ao século dezesseis, com todas aquelas dificuldades. Aqueles homens se defrontavam com o populacho ignorante, gente cheia de preconceitos e que dizia: “Sempre se fez assim!” Vocês não dizem coisas assim as vezes? Ouço muito freqüentemente esse argumento, não só de anglicanos, mas também de batistas, metodistas e outros. O povo era desse jeito naquele tempo, e devemos reconhecer e encarar isso. Em principio não há nada de errado em recorrer a um expediente ou a uma medida temporária quando o problema não envolve uma verdade vital, essencial. É praticar um principio correto fazer, pelo bem da fraternidade, da comunhão e da verdadeira unidade no Espírito, o tipo de apelo e de concessão que o Concílio de Jerusalém fez. Esse é um argumento favorável do Livro de Oração no tempo do reinado da rainha Elizabete, e ainda mais no reinado de Henrique VIII, quando esse livro foi produzido originalmente, e, depois dele, no reinado de Eduardo VI. Todavia, conforme penso, esse é o máximo que se pode dizer em seu favor. E não justifica a forma de perpetuação dessa forma de culto para sempre.


Foi esse, pois, o argumento de pessoas como Cranmer. Mas imediatamente surgiram aqueles homens que eu descrevi como “puritanos radicais”, e estes se opuseram desde o inicio ao Livro de Oração. Eles diziam: “Isso pode ser um recurso útil, porém, seguramente, nestas questões nós devemos ser governados pelo ensino do próprio Novo Testamento. Acaso podemos ficar somente com a mudança do nosso conceito sobre a doutrina da nossa salvação? Certamente o Novo Testamento nos ensina algo sobre a forma de culto, e nós devemos ser coerentes. Devemos levar a Reforma até o fim”. E a luta começou imediatamente. Se vocês leram sobre o grande homem que foi John Hooper, bispo de Gloucester, sabem que ele foi um dos líderes disso tudo, e muitos outros assumiram a posição dele. Eles alegavam que estavam apenas voltando ao Novo Testamento, e diziam que tudo o que tinha sido acrescentado de maneira injustificável, principalmente pela igreja católica romana, devia ser desfeito e descartado.

Chegamos então ao século seguinte, à grande reunião realizada na Abadia de Westminster, a famosa assembléia de teólogos convocada em 1643. Naquele tempo havia confusão neste país, em parte política mas também em grande parte religiosa, concernente, não somente aos bispos porém também a toda a questão relacionada a forma de culto. Os bispos estavam forçando o uso do Livro de Oração; todas as outras formas de culto eram proibidas. Daí, com a agitação política e o problema da guerra, a guerra civil inglesa, que estava em andamento, decidiu-se que se deveria convocar uma assembléia de teólogos. Ela foi realizada na Abadia de Westminster, em Londres, e produziu a Confissão de Fé, de Westminster, e, com ela, um diretório de culto público.
Pois bem, há algo muito interessante neste contexto. A opinião da maioria, entre os participantes da reunião, era da Igreja da Escócia. Nem sempre se compreende que, embora a Igreja da Escócia deva muito a João Calvino, ela se afastou do ensino dele sobre a questão do culto nas igrejas. Membros daquela assembléia achavam que avia necessidade de ajudar e orientar os ministros, mas não concordavam com Calvino quanto ao uso de liturgia expressa e de orações formais. Eles diziam: neste diretório damos a vocês os temas sobre os quais orar, uma idéia geral daquilo pelo que orar e de como orar, contudo não lhes damos as palavras.

Noutras palavras, eles fizeram precisamente o que sugeri em minha interpretação do uso da Oração do Senhor dada pessoalmente pelo nosso Senhor. Quanto vocês orarem, procedam desta maneira: comecem prestando culto e odoração, e então prossigam. Vocês devem ter ordem em suas orações; não saltem de petição em petição. Assim é que o diretório estava interessando simplesmente em apresentar um elemento de ordem. Ele dava uma indicação dos assuntos em geral, mas certamente não prescrevia palavras exatas nem dava instrução no sentido de que tais palavras, e não outras, deviam ser proferidas nas orações e elevadas como petições domingo após domingo, pelos tempos afora.

A seguir, o fim da minha revisão histórica me leva aos eventos de 1662, quando dois mil homens foram eliminados do serviço e dos benefícios da Igreja da Inglaterra. O argumento principal relacionava-se com a questão de culto nas igrejas, e não primariamente com a questão da doutrina. A Lei de Uniformidade estabelecia que todos os ministros tinham que usar o Livro de Oração produzido naquele tempo, modificando ligeiramente o anterior. A isso se reduzia toda a questão. Ora, pessoas como Richard Baxter e outros, que estavam entre os expulsos, não faziam objeção à liturgia. O que eles objetaram era que fosse compulsória. Eles se opunham a determinação que fazia do uso do Livro de Oração uma condição para a admissão ao ministério da Igreja da Inglaterra e que proibia as orações extemporâneas. Foi esse o fato geral de compulsão que constituiu o busílis de 1662.

Devemos examinar esta questão mais adiante, em nosso próximo estudo, quando espero considerar os princípios que nos devem governar em nosso pensamento sobre este assunto. Devemos repudiar a atitude que diz: “Ah, são belas orações! Não seria a linguagem perfeita?”, ou que expresse algum preconceito semelhante, freqüentemente baseado na ignorância, por um lado, ou na pura nulidade de pensamento, por outro. Dou a vocês o meu parecer de que existem aqui alguns princípios vitalmente importantes. Não basta reagir a certas coisas com violência e repulsa – embora eu tenha grande simpatia por este tipo de reação, se me é permitido dizê-lo! Não, precisamos ter bases sólidas, escriturísticas, para dizer – se é o que dizemos – que o Livro de Oração não representa a nossa maneira de entender como deve ser conduzido o culto do povo de Deus na Igreja de Deus. Devemos ser capazes de mostrar, com base nas Escrituras, as razões pelas quais ansiamos por ver uma restauração dos padrões neotestamentário do culto e pelas quais estamos dispostos a dedicar-nos a fazer tudo o que pudermos para trabalhar por tal restauração.
Neste meio termo, queira Deus abençoar-nos e habilitar-nos a considerar tais questões com espírito de humildade e de oração, à luz do ensino das Escrituras.

Oração de encerramento:

Ó Senhor, nosso Deus, vimos a Ti, e mais que nunca nos admiramos de que haja uma Igreja Cristã. Nós nos vemos, e vemos outros homens e mulheres desta e de outras épocas. Ó Deus, damos-Te graças porque o que vemos acima de tudo mais é que a Igreja é Tua e que ela teria perecido há muito tempo se não fosse Tua. Senhor, damos-Te graças por Tua paciência e longanimidade para conosco, e agora de novo nos rendemos e nos submetemos a Ti e à Palavra da Tua graça, rogando-Te que por ela nos controles e nos guies, e que nos capacites a visar sempre e unicamente Tua glória e ao Teus Louvor. Ouve-nos, ó Senhor, pois vimos a Ti em nome do Teu amado Filho, nosso bendito Senhor e Salvador. Amém.

Autor: D. Martyn Lloyd-Jones
Fonte: Livro O Comportamento Cristão - Exposição de Romanos Capitulo 12 /
Editora PESCapitulo 22 p.366-385

domingo, 25 de março de 2007

Um Novo Cântico


Autor: Paul Proctor
Parte 1


Rick Warren escreveu em um artigo recente publicado em www.Pastors.com que "Não existe música cristã. O que existe são letras cristãs", implicando que toda e qualquer música é aceitável para a adoração contanto que as letras sejam "cristãs"- seja lá o que isso signifique. Eu diria ao pastor Warren que se o grupo AC/DC fornecesse a música de adoração em sua igreja na próxima manhã de domingo, poucos de seus membros e frequentadores seriam capazes de se certificarem se as letras eram "cristãs" ou não devido ao nível de decibéis estridente criado somente pela instrumentação. Minha pergunta é: Sob essas circunstâncias, que diferença as letras fariam?


Na consideração dos "estilos musicais" julgados apropriados ou não para a igreja e a adoração, muitos acreditam hoje que a música, separada de sua letra, é amoral - o que quer dizer que ela não é nem boa nem má. Geralmente, essas são as mesmas pessoas que aceitam a noção humanista de que não existe nenhum absoluto - que o mundo em que vivemos não é nem preto nem branco, mas somente cinzento e relativo. O fato é que a música é uma obra, uma realização, uma ação e um produto da iniciativa humana que pode ser tão moral ou imoral quanto aquele que a executa. Os "progressistas" de hoje dentro do movimento de crescimento de igreja orientado para resultados e sensível aos buscadores, que está atualmente espalhando seus métodos na corrente dominante da vida da igreja, gostariam de nos fazer reconsiderar o que é bom e mau para a adoração e ao mesmo tempo sugerir que é vontade de Deus para você e para mim experimentarmos coisas novas e emocionantes simplesmente por que nunca as experimentamos antes. Isso soa como a lógica da serpente para mim. E, a propósito, pode alguém do novo paradigma me mostrar onde a Bíblia incentiva a experimentação em questões espirituais? Engraçado, eu sempre pensei que era obediência que Deus queria.


Certamente, o Senhor não deu nenhum mandamento que diga "Não tocarás Rock and Roll na igreja aos domingos" mas também não disse "Não realizarás os serviços da igreja no meio de um cruzamento movimentado". Algumas coisas são realmente óbvias. Tendo saído de uma vida de tocar muitos estilos musicais profissionalmente, eu tinha a mesma mentalidade pragmática que os aderentes do Movimento de Crescimento da Igrejas. Francamente, tal atitude é muito comum entre os músicos. Cedo em minha caminhada cristã, tentei incorporar meus gostos barulhentos e exóticos em música em minha vida cristã, não percebendo naquele tempo que os dois eram em grande parte incompatíveis - que, na realidade, meu "gosto musical" tinha um efeito adverso em minhas atitudes e comportamento como cristão. Infelizmente, eu era demasiado egoísta e imaturo para aceitar isso.


A música é muito parecida com o álcool e as drogas. Ela pode ser muito enganadora e destrutiva quando mal empregada e pode distorcer as emoções, o raciocínio, o julgamento, a perspectiva e o comportamento da pessoa. A pressão dos pares somente piora as coisas. A música, com ou sem letras, pode ser uma força muito poderosa em nossas vidas. A razão é que os instrumentais sozinhos podem produzir lágrimas nos olhos ou gritos de uma multidão antes mesmo que uma única palavra seja cantada. Do mesmo modo, outras emoções podem facilmente ser despertadas por melodias e por ritmos sem letras tendo com resultado a alegria, a felicidade, o entusiasmo, a ira, a amargura, a depressão e a raiva. Dizer que a música sem letras é amoral é como dizer que a música sem letras não mexe com as emoções. É um absurdo.


Como Kimberly Smith escreveu em seu livro: Let Those Who Have Ears To Hear (Quem Tem Ouvidos, Ouça), a música tem uma mensagem própria, independente da letra. Se você duvidar disso, observe o que as pessoas fazem em uma multidão quando músicas em volume alto e com batidas fortes são tocadas. Sob o poder e a influência da música e das batidas, elas moverão os braços, pernas, pés, mãos, quadris, cabeças, pescoços, dedos e mesmo seus rostos de formas como NUNCA fariam em uma sala silenciosa ou em um salão de igreja repleto de pessoas. Observe então ao que elas fazem quando a música suave e delicada é tocada. Elas se tornam tão tranqüilas e delicadas quanto a música. Não são as palavras que compelem nossos corpos a responder. É a música. Por que? Porque, OUTRA VEZ, a música tem uma mensagem própria - uma mensagem estimuladora que pode ou não ser consistente com as palavras que estão sendo cantadas.


Combinar mensagens gentis, amáveis e evangélicas com música alta, agressiva, raivosa ou sugestiva somente confunde o ouvinte no sentido de justificar e aceitar quaisquer sentimentos, emoções, pensamentos e atitudes que possam surgir. Embalar a música sensual ou romântica com letras preenchidas com graça e mensagens amáveis meramente disfarça o perigo de enganar e desarmar um ouvinte que normalmente teria discernimento, e levá-lo a aceitar o inaceitável - freqüentemente resultando em confusão, dissipação, desapontamento e derrota. É como dizer que é aceitável beber muito álcool contanto que esteja misturado com suco de fruta. A verdade é que os efeitos intoxicantes do álcool sempre se sobreporão e anularão quaisquer benefícios à saúde que o suco puder oferecer.


O volume em que a música é tocada é outra área em que os limites devem ser colocados para facilitar a adoração. Exceder esses limites pode ser não somente contraprodutivo, mas também muito perigoso. Aprendi muito tempo atrás que quanto mais alta e mais agressiva era a música em meu carro, mais rápido, mais agressiva e mais irrefletidamente eu dirigia. Não é nada diferente no trabalho, em casa, na escola ou na igreja. Se a música errada é tocada na adoração OU mesmo se a música certa for tocada da maneira errada, todos os efeitos positivos serão perdidos. Mesmo uma boa canção pode ser tocada tão ruidosamente em uma sala cheia de pessoas que elas são forçadas a tapar seus ouvidos e correr para fora, provocando uma circunstância conhecida como a "Síndrome do Lutar ou Voar". Exatamente como todos têm seu próprio gosto em música, todos têm seu próprio ponto inicial de tolerância com relação ao volume. Respeitar os limites e ter consideração altruísta pelos outros são essenciais em agradar a Deus, não somente na vida diária mas também na adoração na igreja aos domingos. É por isso que os princípios bíblicos de moderação e humildade são sempre apropriados.


Você sabia que música em um volume alto é tão insalubre que com o tempo, pode prejudicar seu sistema imunológico e danificar permanentemente o desempenho das glândulas supra-renais e causar mais tarde diversos problemas físicos e emocionais na vida - desde depressão até fadiga e alergias, pressão alta, dor nas juntas, fraqueza muscular, constipação e muito mais - ALÉM de o deixar surdo? Sendo esse o caso, você consideraria que o Rock cristão ser executado domingo na igreja a 110 decibéis seja bom ou mau? Algo assim torna o assunto da letra cristã irrelevante, não é?


Embora existam muitas maneiras para julgar qual música é apropriada para a adoração, depois de muito estudo, muita reflexão e muita oração, cheguei à conclusão que a música de alguém, assim como o caráter da pessoa é definido melhor pela atitude. Nossa música de adoração transmite o fruto do Espírito conforme delineado nas Escrituras ou incentiva e celebra nossa natureza pecaminosa e os impulsos da carne?
"Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança. Contra estas coisas não há lei." [Gálatas 5:22-23]
Procuramos adorar ao Ancião de Dias com nossa música ou tentamos estimular, gratificar e entreter a nós mesmos usando o que quer que traga o maior número de pessoas e os mais altos aplausos? Nossa música exalta um Deus que não é dado à celebridade, modas, apetites ou devaneios ou serve para exaltar algo ou alguma outra pessoa mais? Nosso cântico louva ao servo sofredor, a Cristo, que foi crucificado e que ressuscitou, ou uma cultura que contemporiza com a lascívia e a vaidade? Estamos oferecendo o cântico a Deus ou aos homens? Nosso canto é diferente das cantigas do mundo ou, com exceção das letras, é quase a mesma coisa? Se nosso estilo de vida for como nosso estilo musical, em nada diferindo do estilo do mundo, que diferença farão as letras "cristãs"?
O Salmo 33:3 diz: "Cantai-lhe um cântico novo; tocai bem e com júbilo."


Muitas das personalidades do Movimento de Crescimento de Igrejas e da Música Cristã Contemporânea de hoje tentarão persuadi-lo que o salmista quer dizer nesse verso que devemos descartar os hinos antigos, os estilos antigos, os modos antigos, os instrumentos antigos, os músicos antigos e os cantores antigos e tocar somente aquilo que for mais recente e em volume mais alto na música cristã contemporânea, seja Rock, hip hop, grunge, metal, jazz, R & B, ou o que quer que faça as pessoas se SENTIREM BEM e os céus se abalarem.
Ou estava o salmista, em vez disso, nos encorajando a cantar sem sentir vergonha de nossa nova vida em Cristo - uma caminhada cheia do Espírito Santo, em arrependimento, fé, humildade e sacrifício, crucificando a carne diariamente em obediência, disciplina, dedicação, perseverança, gratidão e louvor?


Parte 2


"Aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Salvador Jesus Cristo; O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniqüidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras." [Tito 2:13-14]


O que é adoração? Conforme compreendo, adoração é vir diante do Senhor como um povo santo e peculiar, em obediência, humildade, reverência, arrependimento e fé com uma atitude da gratidão, para cantar louvores e glorificar Seu nome, ouvir Sua palavra, e honrá-lo com o todo nosso ser por tudo o que Ele é e pelo que tem feito.


Ao contrário das tendências populares, adoração NÃO é se reunir com todos para festejar em nome de Jesus e nos sentirmos bem conosco mesmos com música e psicoterapia intoxicante.
Claramente, o Senhor não quer que aqueles que são seus pareçam, ajam, e soem como cada outro pecador na rua. Ele quer que sejamos diferentes, distintos, santificados e santos de modo que todos saibam que pertencemos a Ele e não ao mundo. Mas, se formos indistingüíveis do mundo, seremos piores do que inúteis; seremos um insulto e um embaraço e estaremos demonstramos que não somos Dele de forma alguma.


Por que, então, sob o pretexto do pragmatismo, temos nos dedicado a fazer a igreja se parecer, agir e soar exatamente como o mundo não transformado, não arrependido e não regenerado ao nosso redor - basicamente enchendo nossas fortalezas com o inimigo para fazer com que eles se SINTAM como aliados? Como isso glorifica a Deus e propaga o evangelho do arrependimento e da fé em Cristo? Não é a proclamação da nossa transformação e redenção de um estado de perdição e de morte espiritual para sermos uma "nova criatura" [2 Coríntios 5:17] aquilo que o salmista quis dizer com "cantai-lhe um cântico novo..." - para mostrar ao mundo que somos agora um "povo peculiar", separado para Deus, e para Ele unicamente?
Assim, quem está aprendendo a cântico de quem aqui? Quem está fazendo de quem um prosélito?
"Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz" [1 Pedro 2:9]
Será que estamos agora receosos de sermos "peculiares" - com vergonha de quem somos e a quem pertencemos? Estamos mais confortáveis parecendo como uma meretriz do que como uma noiva? Se é assim, não negamos a Cristo com nossa desobediência?
"Mas qualquer que me negar diante dos homens, eu o negarei também diante de meu Pai, que está nos céus" [Mateus 10:33]


Não é bastante DIZER apenas que somos Dele e CONTAR ao mundo que somos diferentes. Deve ser evidente em TUDO que pensamos, dizemos e fazemos; caso contrário, somos mentirosos, hipócritas e zombadores de Deus - ouvintes da Palavra, mas não praticantes.
"Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus." [Mateus 7:21]
Em um artigo recente publicado em www.Pastors.com, Rick Warren, autor de Uma Igreja com Propósitos e Uma Vida com Propósitos, foi citado dizendo: "Acredito que uma das principais questões para a igreja no futuro será como iremos alcançar a geração seguinte com nossa música."
Ele disse "alcançá-los com NOSSA MÚSICA"? É o que as gravadoras e as estrelas do Rock fazem! É isso que Jesus nos mandou fazer? É isso que transforma pecadores da velha vida para a nova - "NOSSA MÚSICA"? Jesus levava uma banda para ajudá-lo a atrair as multidões e de forma que pudesse "alcançar" sua geração com uma música? Se for a música que nos traz ao arrependimento e à fé, por que Jesus não escolheu doze músicos de alto nível para serem seus apóstolos e apenas cantar para nós? Por que gastar tanto tempo discursando sobre a vontade de Deus? É por que naquele tempo eles não tinham amplificadores e eletricidade para lhes fazer "sentir a música"?
Você não tem ouvido falar e visto as pesquisas? As preleções são chatas e deixam as pessoas impacientes e pouco à vontade. Assim, Jesus fez a coisa de forma errada? De acordo com o novo paradigma, sim. Hoje, em vez de aulas e preleções, temos muitos pequenos grupos de discussões sobre nossos sentimentos e opiniões na igreja para ajudar a facilitar a interação e construir melhores relacionamentos uns com os outros.


Veja, a implicação aqui é que precisamos de mais terapia - e não de teologia. É nisso que Rick Warren, Bill Hybels, George Barna, C. Peter Wagner e todos os demais líderes do Movimento de Crescimento de Igrejas querem que você acredite. Mas o que os sentimentos e as opiniões humanos têm a ver com a proclamação da Palavra de Deus? O que é mais importante: que cheguemos a um consenso e nos liguemos um ao outro emocionalmente (Dialética Hegeliana) ou que obedeçamos a Palavra de Deus mesmo se ninguém mais ao nosso redor obedecer?


Você vê o que estão instruindo a igreja a fazer aqui? Reconhece a mudança de paradigma? Não proclame a Palavra de Deus (preleção/pregação/ensino, etc). Vamos, em vez disso, "focar o grupo", nossos SENTIMENTOS e OPINIÕES. E tenha SEMPRE muita música sensual para ajudar a facilitar a transição da didática à dialética. Vejam, amigos; atrás disso tudo está uma ênfase na MÚSICA - não na Palavra de Deus. Assim, agora diga para mim: a mensagem mudou?
"De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus." [Romanos 10:17]


A música, não obstante o "estilo", o volume, o compasso ou a instrumentação, simplesmente não pode realizar o que faz a proclamação da Palavra de Deus. Ela poderia atrair e prender a atenção de uma multidão maior do que faria uma preleção, deixar todos em pé aplaudindo e ajudar todos a se SENTIREM bem consigo mesmos, mas se um pecador perdido e condenado ao inferno, não se importar com a Palavra de Deus, não há uma canção no mundo que o pode salvar. Ele pode até gritar "Jesus, Jesus!!" a plenos pulmões durante o número de encerramento da banda, mas duvido seriamente que tomará sua cruz e seguirá a Cristo quando a música parar e os tempos trabalhosos chegarem - o que me traz à pergunta controversa: O que fazem afinal estes momentos cheios de paixão induzidos pela música nos serviços dos buscadores - ensinam a obediência à Palavra de Deus ou manipulam as emoções e o comportamento das massas na cooperação comum?


Dirigindo-se aos seus ouvintes na Universidade Liberdade, Warren disse aos jovens apenas o que eles queriam ouvir: "Livrem-se do órgão" e "Acelerem o compasso da música", adicionando, "A mensagem não muda, mas os métodos sim".
Ele disse à multidão de ouvintes: "Vocês podem deixar mais pessoas loucas de raiva com música do que com qualquer outra coisa na igreja". Tudo bem - esta então é sua "visão", pastor - deixar as pessoas mais velhas loucas de raiva na igreja até que saiam e possamos enfim ter bons momentos? Não é por isso que os adolescentes rebeldes gostam quando seus pais viajam - para que possam aumentar o volume da música, virar a casa de cabeça para baixo e trazer todos os seus amigos para festejarem à vontade? Alguém vê similaridades aqui? O que estamos encorajando e acomodando na igreja com esse tipo da atitude?


Em muitas igrejas reinventadas em todo o país, isto é EXATAMENTE o que está acontecendo. Em uma estranha e triste ironia, o "sal da terra" está sendo espezinhado e lançado fora por causa de suas "tradições". É assim que honramos nosso pai e nossa mãe e todas as pessoas idosas da nossa geração - aqueles cujos anos do serviço, dedicação e investimento espiritual construíram as próprias casas da adoração, que agora estão sendo renovadas em palácios de festas de "Propósito e Paixão"? Para mim, isto parece mais uma rebelião orquestrada.


Os liberais sempre apontam os fariseus do tempo de Jesus quando querem atacar a "tradição" e a redefini-la como má. Por que? Porque isso serve a uma agenda alternativa - um plano humanista para a mudança contínua, projetada para amaldiçoar o passado e enaltecer o futuro. Além disso, estão usando a rebelião da juventude para fazer isso para eles. Por que você pensa que sempre ouvimos o cliché liberal, "As crianças são nosso futuro"? É porque querem que os internos dirijam o hospício de forma que a dialética possa tomar o controle para trazer a mudança social na igreja por meio da contemporização. Contemporização envolvendo o que? A imutável Palavra de Deus.
Mas Jesus não estava condenando a "tradição" por si mesma. Estava condenando a "perversão" - a perversão que os fariseus estavam fazendo da verdade - a verdade da Palavra de Deus. A perversão da Palavra de Deus tinha ocorrido por tanto tempo que SE TRANSFORMARA NA TRADIÇÃO daquele tempo. Isso de maneira alguma invalida todas as coisas tradicionais. Mas, infelizmente, na igreja pós-moderna, a tradição, com o perdão da palavra, está se tornando rapidamente uma coisa do passado.


Além dos aspectos morais e espirituais da música alta e rápida, existem também algumas questões de saúde a serem consideradas. Quando o corpo humano experimenta dor, libera seus próprios anestésicos naturais na corrente sanguínea, chamados de endorfinas. Como todos sabemos, um dos efeitos colaterais dos anestésicos é a agitação que produzem.


O som alto, sustentado, pulsante e repetitivo prejudica não apenas o ouvido, mas também todo o corpo humano - especialmente as freqüências abaixo de 100 Hertz e níveis acima de 110 decibéis. Quanto mais intensas e unidirecionais forem as ondas sonoras, maiores serão os danos causados às células e mais substâncias anestésicas nosso organismo liberará para amenizar a dor. Essa é uma das razões por que a música alta é tão apelativa aos jovens nos concertos das bandas musicais; porque eles não apenas a ouvem, mas a SENTEM também e, adivinhe, a música alta lhes dá uma sensação agradável, o que me leva a fazer a seguinte pergunta: Aqueles que freqüentam os serviços dos "buscadores" com sua música alta e animada estão sendo alimentados espiritualmente por sua presença e participação ou estão sendo levados sonoramente a sentirem interesse por Jesus? Você chamaria isso de uma experiência motivada pelo Espírito ou pelas endorfinas? Eu chamaria de um incidente relacionado com as drogas.
Outra substância que é liberada no organismo quando a pessoa é exposta ao estresse causado pelo som em volume elevado é a adrenalina. Entre outras coisas, a música alta, como outros eventos e atividades estressantes, produz o que é geralmente chamado de "descarga de adrenalina". A adrenalina ajuda nosso organismo a lidar com o estresse e o trauma provocados pelas ondas sonoras em volume extremamente alto e em baixa freqüência que podem embrutecer os freqüentadores de apresentações de bandas musicais. Como as endorfinas, a adrenalina também é um mecanismo de defesa natural. Se nos sujeitarmos repetidamente a níveis sonoros que forcem nossas glândulas supra-renais a um esforço excessivo para liberarem adrenalina apenas para lidar com o choque auditivo e físico de um concerto de Rock, podemos não somente nos tornar viciados com ela, mas também experimentar muitos dos efeitos físicos e emocionais adversos da supressão ENTRE CONCERTOS (serviços dos buscadores) quando NÃO recebemos a adrenalina que fomos condicionados a receber - potencialmente tornando nossas vidas diárias sem música alta um inferno na Terra. É por isso que nos sentimos com dores no corpo, fatigados, agitados e às vezes deprimidos um dia após termos enfrentado um evento clamoroso. A adrenalina declina junto com o nível sonoro, deixando-nos em um estado menos que desejável.


Falando no seminário "Construindo uma Igreja com Propósitos", Rick Warren teve isto a dizer: "Música alta e barulhenta com uma batida dirigida é o tipo de música que seu povo escutava." Disse, "Somos realmente bem barulhentos em um serviço do fim de semana.... Eu digo, 'Não vamos abaixar o som'. Agora a razão é por que a geração que cresceu a partir dos anos 50, os baby boomers, querem sentir a música, não apenas ouvi-la..."
Entretanto, embora essas observações sejam tristes e reveladoras - nada me preparou para a seguinte afirmação do pastor Warren:
"Insistir que toda música boa veio da Europa duzentos anos atrás - há um nome para isso - racismo."
Você vê o que ele está fazendo aqui? Mostrando "tolerância, diversidade e unidade" (a doutrina diretora do “buscadorismo”), Warren faz o que os liberais SEMPRE fazem aos tradicionalistas, usa o argumento racial para tentar não apenas elevar a si mesmo e sua causa sob um disfarce de humildade e compaixão, mas também envergonhar e silenciar seus críticos "presos ao passado" com hipérbole e insinuação politicamente corretas.
Assim, todos os cristãos mais velhos e tradicionais devem ficar bem atentos, porque torcer o nariz para a música na igreja que é espiritual, emocional e fisicamente nociva faz agora de você um racista.

Paul Proctor reside em uma área rural no estado do Tennessee e é um veterano na indústria da música sertaneja americana. Ele abandonou suas atividades musicais no fim dos anos 90 para se dedicar a abordar importantes assuntos sociais a partir de uma perspectiva bíblica. Como autor independente e colunista regular da
News With Views, exalta a sabedoria e as verdades das Escrituras em seus comentários e opiniões sobre as tendências culturais e os eventos da atualidade. Seus artigos aparecem regularmente em diversos sites de notícias e de opinião na Internet e em publicações impressas.


Tradução: Walter Nunes Braz Jr.

Extraído do site "Espada do Espírito": http://www.espada.eti.br/

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Adoração e o Culto Congregacional

Um dos pontos distintivos entre algumas igrejas e denominações, além de certas doutrinas, é a forma (liturgia) do culto congregacional. Trata-se de um ponto tão importante na vida da igreja, que um pastor (em alta na mídia) afirmou que a igreja precisa urgentemente de uma reforma litúrgica(1). O presente trabalho pretende analisar a luz das Escrituras Sagradas esse tema tão desafiador; não tem a pretensão de esgotá-lo (missão “quase” impossível) e nem de ser a palavra final (e nem tenho a capacidade para tal proeza), contudo, nossa oração é de que estejamos expressando com fidelidade as verdades ensinadas na Palavra de Deus.
Muitos têm afirmado nos dias de hoje que a forma de como adoramos a Deus não é importante, e sim a disposição de nosso coração. A adoração muitas vezes tem sido mal compreendida, e seu conceito/significado tem se restringido aos momentos de reuniões de louvor ou cultos. Faz-se necessário um exame através das Escrituras para uma melhor compreensão acerca da adoração e do culto cristão.


Adoração
“Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fóssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; Com o fim de sermos para louvor da sua glória...” (Efésios 1:4, 12a).

Adoração no A.T. é traduzida de algumas palavras, como hawâ/hishtahawâ, sagad, atsab, abîdâ e polhan. A que aparece mais vezes “hishtahawâ”, significa literalmente “prostrar-se até o solo”: “E Esdras louvou ao Senhor, o grande Deus; e todo o povo respondeu: Amém! Amém! Levantando as suas mãos; e inclinaram suas cabeças, e adoraram ao Senhor, com os rostos em terra”. Uma outra palavra interessante para adoração no A.T. é “polhan”, literalmente, “serviço”: “Eis que o nosso Deus, a quem servimos (adoramos), é que nos pode livrar; ele nos livrará da fornalha de fogo ardente, e da tua mão, ó rei”. No grego, a palavra adoração é traduzida de proskuneo, equivalente do hebraico hishtahawâ, que no N.T. também pode significar tanto “prostrar-se” como “adorar”. (2) Outra palavra grega traduzida para adoração é “latreuo”, que significa “serviço”: “Porque a circuncisão somos nós, que servimos (adoramos) a Deus em espírito...” (Fp. 3:3). Nos dicionários da Língua Portuguesa(3), “adorar” significa “render culto, venerar, amar extremamente, reverenciar”.

A Bíblia ensina claramente que só a Deus podemos adorar, prestar culto (Mt. 4:10). Portanto, qualquer outro ser (inclusive nós mesmos) ou qualquer outra coisa que ocupe o centro de nossas vidas está tomando o lugar/a posição que pertence a Deus, e cometemos o pecado de idolatria.
A base da adoração é o nosso amor a Deus: “Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças” (Dt. 6:5). A verdadeira adoração é resultado de nossa completa rendição ao Senhor: “Se me amais, quardai os meus mandamentos”; “Aquele que tem os meus mandamentos e os quarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” (Jo. 14:15,21).

A verdadeira adoração fundamenta-se no caráter de Deus. É a plena convicção de que Ele é digno de ser adorado por quem Ele é. A adoração genuína é aquela que permanece ainda que fosse possível a cessação de todos os seus benefícios terrenos às nossas vidas. Deus deve ser adorado não apenas por suas obras e benefícios que nos outorga, mas principalmente pelo seu caráter, pela sua própria pessoa. Uma leitura cuidadosa do livro de Jó nos revela esse outro aspecto. Satanás teve a intrepidez de afirmar ao próprio Deus que Ele não era digno de ser adorado. A adoração recebida pelos homens consistia na verdade de uma barganha, de uma troca: “porventura teme Jó a Deus debalde?” (Jó 1:9). Era uma farsa, uma mentira: “Mas estende a tua mão, e toca-lhe em tudo o que tem, e verás se não blasfema contra ti na tua face” (Jó 1:11). Satanás não acusava somente a Jó, mas afirmava que Deus só era adorado pelas suas obras (as bênçãos que nos dá). Sabemos a história de Jó, e oxalá tenhamos um coração como o dele. Jó amava realmente a Deus, e por isso o adorava (servia), não apenas pelo que recebeu de Suas mãos.
A nossa adoração a Deus é, de fato, a expressão de nosso viver que glorifica o seu nome; a adoração está relacionada com tudo o que estamos realizando. Paulo afirmou: “portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus” (1Co. 10:31). A adoração ou culto é definido pelo pastor Onésimo Figueiredo4 como todo “serviço que se presta a Deus”. Alguns aspectos da nossa adoração incluem, portanto, o louvor, ações de graça/gratidão, confissão, arrependimento, serviço, comunhão, estudo da Palavra e oração, mordomia do corpo e dos bens. A adoração não está mais restrita a um lugar, como no A.T. ao Tabernáculo ou a Jerusalém (Jo. 4:20)). Como crentes, somos templo do Espírito de Deus (1 Co. 3:16)) e a expressão de nossa adoração a Deus passa a ser o modo de vida que temos e não uma prática de uma vez ou duas por semana numa determinada igreja.



O Culto no Antigo Testamento
“Quão amáveis são os teus tabernaculos, Senhor dos Exércitos!” (Sl. 84:1).

É no livro de Levítico que encontramos os fundamentos da religião instituída por Iavé aos israelitas; trata-se de um “manual” do culto realizado no tabernáculo. Um culto rico em cerimônias, cujos símbolos e figuras apontavam para a pessoa e o ministério de Jesus Cristo. As cerimônias eram tanto coletivas (âmbito nacional) como também individual (realizado apenas pelo indivíduo sob orientação do sacerdote); algumas cerimônias eram diárias, semanais, mensais e anuais:
- Páscoa, a Festa das Colheitas e dos Tabernáculos;
- Festa dos Pães Asmos, Festa das Trombetas e o Dia da Expiação;
- Solenidade das Luas Novas (com toque de trombetas e oferecimento de sacrifícios);
- Holocausto contínuo (diariamente – manhã e tarde), oferecimento de Incenso;
- Sacrifícios Individuais, cerimoniais de Purificação, votos, entrega de primícias e dos dízimos.

O Culto no A.T. era extremamente elaborado, bem organizado, e através de cada cerimonial um objetivo era alcançado. Foi o próprio Deus quem definiu tudo como deveria ser. Muitos pensam que aquele culto não passava de meros rituais e cerimoniais desprovidos de significados para aqueles israelitas, pelo contrário, o que podemos compreender, principalmente com a ajuda do livro de Hebreus, é de que existiam ensinamentos e propósitos para o povo de Israel em cada ato daquele culto. Cada gesto, cada símbolo, cada cerimônia, apontavam para um propósito real na vida da nação e na vida de cada israelita em particular. O culto no A.T. tinha como objetivo revelar o caráter de Deus para o povo de Israel e era baseado na vida e no ministério de Jesus. Não sabemos até onde os israelitas tinham compreensão de tudo isso, mas o culto no Tabernáculo revelava as verdades divinas através de um nível básico para aquele povo.

A maior parte do tempo dos israelitas era dedicada ao culto no Tabernáculo, onde haveria a comunicação de Sua santidade. Essa comunhão constante com Iavé formaria a consciência da presença contínua do Senhor no meio deles. Tudo que era realizado ali era feito como estando na presença do Senhor (como de fato era); como afirmou um estudioso de Levítico, Sr. Jonathan dos Santos(5): “não se tratava de invocá-Lo. Ele estava ali. A ênfase era em festejar Sua presença, adora-Lo, buscar seu perdão e a expiação provida por Ele”.
O que podemos aprender do culto judaico para os dias de hoje? O culto no A.T. era completamente teocêntrico. Era um culto que produzia “vida” para os seus participantes, pois comunicava-lhes as verdades divinas e formava-lhes a convicção de que Deus estava no meio deles. Esse também deve ser um claro ensinamento para nós cristãos. Israel era figura da igreja, e assim como Israel era sustentado no deserto e foi separado das outras nações, hoje a igreja se encontra no mundo, mas separada dele, e é totalmente dependente da provisão divina, como Israel no deserto. O que salta aos nossos olhos quando estudamos o culto no A.T., e pensamos em o que Deus quer nos ensinar hoje, é de que submetamos ao seu propósito de santificação: “... santos sereis, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo” (Lv. 19:2).
Naquele culto, o propósito da santificação seria alcançado, tanto separando Israel das coisas impuras como pelo poder da presença de Iavé no meio deles. Nesse sentido, a igreja deve levar bastante a sério a realização de seus programas de culto. Se quiser realizar um culto a Deus onde haja produção de “vida”, santidade e edificação de seus membros, as verdades divinas precisam ser comunicadas com fidelidade, ou seja, a Palavra de Deus deve assumir a centralidade no culto. Analisemos algumas situações do A. T. aonde a Palavra de Deus foi desviada ou parcialmente obedecida, gerando sérias implicações na adoração e no culto prestado:

· Lv. 10:1-3: "E os filhos de Arão, Nadabe e Abiú, tomaram cada um o seu incensário e puseram neles fogo, e colocaram incenso sobre ele, e ofereceram fogo estranho perante o Senhor, o que não lhes ordenara..."Gostaria que todos os leitores desse comentário tivessem já realizado um estudo sério do livro de Levítico. Embora julgado por alguns apenas como um livro de coletânia de informações irrelevantes para quem já está na era da "graça", da igreja, negligenciam que existem princípios que devemos nos atentar, bem como aponta a obra maravilhosa da redenção humana através de Jesus Cristo. Bem, quero destacar alguns pontos nesse episódio envolvendo os filhos de Arão: (1) Eles eram sacerdotes e crentes no Senhor. Não eram incrédulos, e mesmo assim foram julgados. Não estamos nos referindo aqui a salvação, e sim as obras (1 Co.3:13-15). A obra de Deus é por demais grandiosa, pois custou a vida de seu Filho na cruz, por isso não podemos levá-la levianamente ou “brincar” com as coisas de Deus; (2) Eles desobedeceram ou se desviaram da Palavra de Deus: “... não lhes ordenara”. O resultado de quando a Palavra de Deus não ocupa a centralidade do culto ou de nossa vida é acharmos que somos “auto-suficientes” ou que podemos “contribuir” ou “melhorar” alguma coisa que Deus nos ordenou realizar. Observe que quando a Palavra de Deus é deslocada do centro do culto, a tendência humana é “incrementar” com algo novo, que julga ser “bom”; (3) Eles trouxeram algo impuro: “ofereceram fogo estranho...”. Interessantes algumas analogias que certas pessoas fazem hoje para defender o uso “disso ou daquilo” no culto – dizem elas- Deus criou a música, portanto, todos os ritmos musicais são de Deus. Mas Deus também não criou o fogo? Não é de supor que todos os “tipos” de fogo sejam do Senhor? Porque então fogo estranho para o Senhor?

· Is. 1:11-15: “De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios, diz o Senhor? Já estou farto dos holocaustos... não posso suportar iniqüidade, nem mesmo a reunião solene... Por isso, quando estendei as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue”. Aqui está a verdadeira descrição de uma ortodoxia morta. Meros rituais sem significados, mecanizados, intensa atividade religiosa sem produção de santidade prática. A “ortodoxia morta” não é a liturgia conservadora, como pensam alguns, acusando-as de serem repressoras do sentimentalismo e das emoções humanas. Bem que é possível existir igrejas onde a liturgia seja conservadora e ainda assim ser de “ortodoxia morta”, mas não por conta da liturgia, e sim pelo afastamento da Palavra de Deus.


· Amós 4: 4-5: “Vinde... e transgredi... e multiplicai as transgressões; e cada manhã trazei os vossos sacrifícios, e os vossos dízimos ... e oferecerei o sacrifício de louvores do que é levedado, e apregoai as ofertas voluntárias, publicai-as; porque disso gostai, ó filhos de Israel, disse o Senhor Deus”. Quanto mais nos afastamos da verdade, menos desejamos a Palavra de Deus. Israel vivia uma espécie de religião vazia. Atividades religiosas que alimentavam um estereótipo de povo religioso, mas sem Deus. A conseqüência é aprofundar ainda mais no pecado; Sem a Palavra de Deus não há luz para o arrependimento, não há alimento espiritual, e consequentemente não há mudança ou transformação de vidas. Aqueles israelitas gostavam dos rituais, deleitavam-se neles, mas eram rituais vazios praticados mecanicamente.



O Culto Cristão Congregacional
Não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais, quanto vedes que se vai aproximando aquele dia” (Hb. 10:25).


O culto congregacional é um meio pelo qual Deus nos abençoa. O culto é, portanto, algo essencial para a vida da igreja. Quando o crente não freqüenta a sua “igreja”, ele estará perdendo bênçãos espirituais que Deus tem outorgado através da comunhão com nossos irmãos de fé. Embora nenhuma reunião congregacional possa substituir a aplicação individual ao estudo da palavra (sistemática e devocionalmente) e à oração, o culto é de real valor para a vida cristã. Entretanto, o culto que prestamos a Deus só lhe é agradável, aprazível, se corresponder a Sua vontade (Rm. 12:1-2), e abençoador aos participantes, se somente comunicar-lhes as verdades divinas, todo o conselho de Deus.





Culto Cristão: Criativo e Novo – Sempre!
“Falando entre nós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração. Dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (Ef. 5:19-20).


Quando os crentes se reúnem para celebrar a Cristo, eles o fazem porque têm uma vida cristã real, que é produto de uma fé num Senhor vivo. Isso faz com que cada ato, cada momento do culto se torne especial, com significado. É criativo e novo não por que traz a cada culto uma inovação diferente, mas porque Deus, através de sua Palavra proclamada, sempre realiza algo novo em nossas vidas. Somos edificados e abençoados pela Palavra de Cristo. Uma séria acusação que se faz a respeito das igrejas ortodoxas (fundamentalistas/conservadoras) é de que essas igrejas impedem o agir do Espírito Santo, bem como inibem a expressão da totalidade do ser humano no louvor a Deus, pois alegam que o homem não é apenas intelecto/raciocínio, mas é também emoções/sentimentos, e esses são tolhidos numa liturgia ortodoxa. Acredito que os que assim pensam ainda não estão totalmente convencidos da suficiência da Palavra de Deus para as nossas vidas.

O coração do salvo está repleto de alegria e prazer. Sua satisfação é completa em Cristo e em Sua Palavra. Cada culto é uma nova oportunidade para agradecer (gratidão/ações de graça) ao Senhor por tudo quanto Ele tem realizado. Como então suas emoções e sentimentos estão inibidos? Na verdade, nossos sentimentos apenas não estão fora de controle, em êxtase, mas submetidos à nossa própria faculdade, adorando ao Senhor tanto com a mente quanto com o coração (Rm. 12:1-3). A nossa satisfação e contentamento está em agradar a Deus e não em satisfazer a nossa própria carne.
Mas devemos ter muito cuidado com o estereótipo! Não é apenas por uma igreja possuir uma liturgia conservadora que significa realmente que ela está centrada na Palavra de Deus. Ouvir falar de uma igreja conservadora, onde se primava por um culto tradicional, mas que segundo o relato, existiam sérios problemas de ordem espiritual e moral, como membros envolvidos em caso de adultério e negócios irregulares (e parece que nada se fazia para corrigir esse mal), reuniões de oração que dificilmente tinham mais de 10 membros participando, além de partidarismos e desavenças familiares. Tudo isso é triste e envergonha o Evangelho.



A Primazia da Palavra de Deus no Culto
Que pregues a Palavra...” (2 Tm. 4:2)


Com o advento da Reforma Protestante as Escrituras assumiram novamente a primazia nas reuniões dos crentes para cultuar a Deus. Segundo o Dr. Leland Ryken(6), os “atos do culto enfatizados pelos puritanos e reformadores eram preponderantemente atos literários: ler a Bíblia, meditar no seu significado, ouvir sermões, e conversar com os outros sobre a apreensão de cada um da doutrina baseada nestas atividades”. Dois pontos a se considerar: a primazia da pregação no culto e que essa pregação seja a exposição bíblica. Argumentando a respeito da primazia da pregação no culto, o Dr. Martyn Lloyd-Jones(7) afirma: “... a pregação é a tarefa primordial da Igreja, está alicerçada desse modo sobre as evidências dadas pelas Escrituras, bem como sobre as evidências confirmatórias e corroborativas da história da Igreja”. Citado por John MacArthur(8), o Dr. Douglas Webster expõe como era a pregação bíblica nas igrejas: “A pregação bíblica era teocêntrica, revelava o pecado, tocava no ego e transformava vidas; era completamente o oposto dos sermões rápidos e informais de hoje que cristianizam a auto-ajuda e servem mais para entreter do que convencer do pecado”.

Ai está a razão da primazia da pregação bíblica no culto: ela é o principal instrumento pelo qual o Espírito de Deus opera em nossas vidas. O apóstolo Paulo nos afirma que o Evangelho é poder de Deus para a salvação daquele que crê (Rm. 1:16), não há outro caminho (Rm. 10:17); substituí-lo, alterá-lo,acrescentando ou retirando dele, é um ato abominável, condenável e réu de juízo divino (Ap. 22:19).


A Simplicidade do Culto Cristão
E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações” (At. 2:42).

Os anabatistas e os reformadores, ao contrário da igreja dominante da época, sempre procuraram estabelecer o culto dentro do compasso da Palavra de Deus. O pensamento deles é bem traduzido pelas palavras do puritano Richard Cox(9): “Sou da opinião de que todas as coisas na igreja deveriam ser puras, simples e removidas o mais longe possível dos elementos e pompas deste mundo”. Um dos princípios bíblicos mais negligenciados nos dias de hoje para o culto cristão é o de 1 Coríntios 14:40 para que tudo seja feito “decentemente e com ordem”. A reforma teológica necessariamente implicou em reforma litúrgica, e isso já foi feito.

Não existe uma liturgia definida, estática. A liturgia de uma igreja atual não precisa ser necessariamente idêntica a de uma igreja do passado ou de uma igreja vizinha. A presença de um coral, a preferência por determinados hinos e cânticos, a utilização de instrumentos sonoros são elementos que podem dar características distintas às liturgias. Às vezes, a liturgia de uma congregação rural difere, pela presença ou ausência de certos elementos, da liturgia de sua igreja-sede. Em Ef. 5:18-21, Cl. 3:16-18 e 1 Ts. 5:16-22, os elementos fundamentais, encontrados nessas passagens bíblicas, que constituem um culto congregacional, , são nominadas pelo pastor Figueiredo(10) como sendo louvor, oração, ação de graças, pregação, ensino, submissão e regozijo espiritual. O que na verdade está se fazendo hoje é que muitas igrejas estão retornando aos moldes antigos da missa católica e de cultos pagãos com outros “padrões” de esculturas, imagens e tradições que substituíam as Escrituras. Esses novos padrões se apresentam na forma de comportamentos, como o sensualismo, misticismo, transes, hipnoses, despertados e motivados pelas músicas dançantes, técnicas persuasivas, ritmos alucinantes, mantras, etc.



Elementos que prejudicam à nossa adoração a Deus
Não é boa a vossa jactância. Não sabeis que um pouco de fermento faz levedar toda a massa?” (1 Co. 5:6).


01. Materialismo: A avareza, a ganância, o amor desenfreado pelo dinheiro é uma das mais sérias infecções que tem contaminado as igrejas: 1 Tm. 6:10; Hb. 13:5. A doutrina da prosperidade tem apresentado um “outro evangelho”; bastante popularizada, essa doutrina tem sido um vergonha para o Evangelho, abnegando da mensagem da cruz, da santificação, da submissão e rendição completa ao senhorio de Cristo. Ela apregoa uma mensagem de exaltação ao ego, fazendo do homem o senhor e de Deus o seu “capacho”, uma espécie de “gênio da lâmpada”. Quando a igreja é dominada pelo “espírito” do materialismo, ela deixa de investir na evangelização de almas para se tornar uma “igreja amigável” da sociedade, assim seus templos ficam mais cheios e consequentemente mais rica ela se torna. Apesar do materialismo se desenvolver de várias formas, que vai desde a acepção de pessoas (excluindo os pobres) até a ostentação da luxúria, está subjacente a todas elas a adoração ao mesmo deus: o dinheiro.

02. Mundanismo: Não se trata mais de um flerte, isso foi na época de Tozer, Spurgeon, e mais recentemente Lloyd-Jones. Agora, em nossos dias, a igreja está celebrando sua lua-de-mel com o mundanismo. Os templos hoje estão parecidos com as casas de shows, e não me refiro apenas a estrutura física e suas parafernálias, como palco, luzes, fumaça de gelo seco, etc., mas também a sua ideologia, sua cultura. O mundanismo entrou tão sutilmente e agora está arraigada como um sistema que promove a satisfação “daqueles que só procuram gozos materiais”.( 11)

03. Pragmatismo: Uma espécie de pensamento ou noção que consiste na valorização de algo que seja útil e propicie alguma espécie de êxito ou satisfação.(12) O pragmatismo não é ruim em si mesmo em todas as situações, entretanto, quando aplicado como princípio norteador da vida de uma pessoa ou da igreja entra diretamente em confronto com as escrituras Sagradas. Na prática, funciona como “o fim justifica os meios”. O desejo de ver a igreja crescer (que pode ser um desejo sadio), não pode passar por cima da soberania divina. É Deus quem dá o crescimento (At. 2:47; 1 Co. 3:6,7), através da proclamação de Seu Evangelho. Não podemos lançar mãos de artifícios, como técnicas de marketing, manobras de manipulação psicológica, entretenimento para conquistar as multidões. O nosso dever é proclamar com fidelidade o Evangelho de Jesus Cristo e testemunhar de nossa fé em Cristo onde estivermos.

04. Filosofia Contemporânea: Alguns teólogos e pastores modernos aplicam essa filosofia ao evangelho e à vida da igreja com o termo conhecido como “contextualização” (não encontrada nos dicionários). Essa expressão traz a idéia de “atualizar”, no caso aqui, a mensagem do evangelho, de forma a se adaptar a atual realidade da sociedade. A igreja de filosofia contemporânea é aquela que adaptou/acomodou/conformou a sua mensagem (conteúdo bíblico) e a sua metodologia à cultura na qual está inserida. Para tal proeza é necessário lançar mão da psicologia para entender melhor as angústias, as ambições, os conflitos existenciais da sociedade, e assim negam a suficiência das Escrituras para o governo e direção de todos os aspectos inerentes ao ser humano; recorrer as técnicas gerenciais e de marketing empresariais para “conquistar” o maior números de “clientes”; o misticismo para persuadir e amedrontar, e dessa forma segurar a pessoa pelo “medo”.

Alguns indivíduos em seus argumentos favoráveis a essa nova reforma litúrgica, produzida especialmente nas igrejas que adotaram algum modelo eclesiástico de crescimento (MCI), como o G12, o G5 (Igreja com Propósitos), Rede Ministerial, Comunidade Vineyard, têm afirmado que os cultos “contemporâneos” têm contribuído/facilitado para que um maior número de pessoas encontre a Cristo, e que essas igrejas têm permanecido fiéis às doutrinas fundamentais da fé cristã. Não podemos desconsiderar totalmente que algumas pessoas têm realmente um encontro genuíno com Cristo nessas igrejas, mas a questão a considerar é qual o preço a pagar? Ao contrário do que muitos pensam, muitas igrejas têm hoje abandonado doutrinas essenciais, como por exemplo, a divindade de Cristo, e abraçado o ecumenismo(13). Quanto às doutrinas, se não são abandonadas, são relegadas a um segundo plano na vida da igreja, mas a um nível tão secundário que ficam “submersas”, pois as “doutrinas dividem”.(14) O que vale perguntar é se realmente está ocorrendo conversões genuínas ou um mero crescimento social ou psicológico?



Considerações Finais


O culto não é uma festa preparada para entreter os membros da igreja, e nem é mais espiritual quando provoca as emoções ao ponto de embotar a razão de seus participantes. O culto é o serviço que prestamos a Deus, é a nossa adoração sincera à sua Pessoa; e somente ocorre em conformidade com a sua Palavra. O culto congregacional é um momento da nossa adoração, e é essencial para a vida da igreja. O desvio ou a obediência parcial da Palavra de Deus leva-nos a uma falsa adoração, e consequentemente prestamos um culto distorcido ao Senhor.





Notas

1. "Selecting Worship Music", Rick Warren: “Você precisa fazer combinar a música com o tipo de pessoa que Deus quer que sua igreja alcance... A música que você usa 'posiciona' sua igreja na cidade ou bairro. Ela define quem você é... Ela vai determinar o tipo de pessoa que você atrai, o tipo de pessoa que você mantém e o tipo de pessoa que você perde"; numa visão ainda mais abrangente para o serviço (culto) da igreja, ele afirma: “A primeira Reforma esteve relacionada com as crenças. A Reforma de agora precisa estar relacionada com o comportamento ... Já tivemos uma Reforma, o que precisamos agora é de uma transformação."

Citado em “Igreja dirigida pelo Espírito ou orientada por propósitos? – parte 1” De Paul Proctor (disponível em http://www.espada.eti.br/).

2. Dicionário Internacional do Antigo Testamento, pgs. 434-436; 1027; 1155; 1715.

3. Dicionários da língua Portuguesa: Aurélio, Antônio Olinto e Silveira Bueno.

4. “O Culto”, Rev. Onésimo Figueiredo (disponível em http://www.monergismo.com/).

5. “O Culto no Antigo Testamento”, Jonathan F. dos Santos, pgs. 178, 182. Sobre a finalidade do culto no A.T. de transmitir a Israel o caráter divino, ele afirma: “Assim, por meio da realização dos atos de culto no Tabernáculo, e pela permanência constante do povo diante da face do Senhor, Deus poderia comunicar-lhes Seu próprio caráter. É como se dá com um pai e seu filho. Convivendo com ele, ensinando-o, ajudando-o, influenciando-o, o pai procura transmitir-lhe seu próprio caráter. Não era diferente em relação a Deus e seus filhos. Sua santidade, Sua retidão, Sua bondade, Seu amor e as demais qualidades do caráter divino deviam ser absorvidas pela nação israelita, para que, finalmente, ela mesma fosse uma bênção para todos os povos” (destaque meu).


6. “Santos no Mundo”, Leland Ryken, pg. 134.

7. “Pregação e Pregadores”, D. Martyn Lloyd-Jones, pg. 18.

8. “Com Vergonha do Evangelho”, John F. MacArthur, Jr. Pg. 139. Ainda sobre a necessidade de manter-se firme à pregação fiel das Escrituras, o Pr. MacArthur acrescenta: “Portanto, pregar a Palavra deve ser o âmago de nossa filosofia de ministério. Qualquer outra coisa é substituir a voz de Deus por sabedoria humana. Filosofia, política, humor, psicologia, conselhos populares e opiniões humanas jamais conseguirão realizar o que a Palavra de Deus realiza. Talvez sejam coisas interessantes, informativas, divertidas e, às vezes, úteis, mas não são espiritualmente transformadoras e tampouco são da alçada da igreja. A tarefa do pregador não é ser canal para a sabedoria humana; ele é a voz de Deus que fala à congregação. Nenhuma mensagem humana vem com a chancela da autoridade divina, apenas a Palavra de Deus. Francamente não entendo os pregadores que estão dispostos a abdicar tão grande privilégio” (pg. 30).

9. “Santos no Mundo”, Leland Ryken, pg. 121.

10. “O Culto”, Rev. Onésimo Figueiredo (disponível em http://www.monergismo.com/).

11. Dicionários da língua Portuguesa: Aurélio, Antônio Olinto e Silveira Bueno.

12. Dicionários da língua Portuguesa: Aurélio, Antônio Olinto e Silveira Bueno.

13. “Pelo Lado de Fora É uma Igreja Evangélica - Por Dentro Está Adornada com Chocantes Símbolos Ocultistas” (disponível em http://www.espada.eti.br/).

14. Rick Warren: “Evite as Escrituras ofensivas e as advertências divisivas. Remova a ênfase nos absolutos bíblicos e em "doutrina", pois atrapalham a unidade e a mudança contínua". Citado no artigo “Igreja dirigida pelo Espírito ou orientada por propósitos?” – parte 2, de Paul Proctor (disponível em http://www.espada.eti.br/).



Luciano Hérbet Oliveira Lima
Membro da Igreja Bíblica Congregacional em Vitória da Conquista-Ba
(lholim@gmail.com)