L. Hérbet
“E agora vós sabeis o que o detém, para que a seu próprio tempo seja manifestado. Porque já o mistério da injustiça opera; somente há um que agora resiste até que do meio seja tirado; E então será revelado o iníquo, a quem o Senhor desfará pelo assopro da sua boca, e aniquilará pelo esplendor da sua vinda”. (2 Ts 2:6-8 ACF).
Muitos teólogos e biblicistas em geral afirmam que 2 Tessalonicenses 2:6-8 é a mais difícil passagem sobre as últimas coisas ensinada na Bíblia. São inúmeras interpretações a seu respeito nas mais variadas correntes escatológicas. A diversidade de interpretação é tão ampla que o único ponto em comum entre os intérpretes parece ser a dificuldade encontrada para explicar o texto em questão. Examinaremos, brevemente, essa passagem bíblica nas principais teorias escatológicas.
Os pesquisadores bíblicos têm concentrado seus esforços para definir as expressões “o que o detém” (verso 6) e “há um que agora o detém” (verso 7). A primeira expressão refere-se a um agente retentor impessoal, enquanto no verso 7 o agente é pessoal. O apóstolo Paulo instruiu aos crentes de Tessalônica que, naquele momento, algo ou alguma pessoa estava impedindo que o Iníquo (ou Anticristo) se manifestasse.
A maior corrente escatológica, a pré-tribulacionista, acredita que o arrebatamento da igreja ocorrerá antes da tribulação. Esse período, portanto, será precedido por uma grande apostasia e inaugurado com o “rapto” de todos os salvos desse mundo, seguido imediatamente pelo advento do Anticristo. Trata-se de uma interpretação futurista; seus defensores olham para frente, para o futuro, pois crêem que os eventos mencionados pelo apóstolo ainda não ocorreram. A apostasia é entendida como um abandono da fé bíblica pela igreja visível. Acredita-se que a igreja atual representa à igreja de Laodicéia (Ap.3:14-22), caracterizada pelo pouco amor ao Salvador, apegada ao materialismo e ao mundo. Os defensores dessa linha escatológica estão convencidos que a igreja moderna está abrindo as suas portas para o Anticristo.
Para a maioria pré-tribulacionista, o “homem da iniqüidade" ainda não se manifestou devido à presença do Espírito Santo na igreja. O Espírito Santo é o agente restritivo citado no texto paulino. Boa parte desse grupo acredita que o Espírito Santo também se retirará do mundo juntamente com a igreja, fechando assim a era da plenitude dos gentios. Sem a presença e/ou ação ativa do Espírito Santo na terra, o Iníquo então se revelará ao mundo como um messias, dotado de inteligência singular e poderes extraordinários, trará ordem e paz ao caos que a humanidade enfrenta. Dentro deste grupo, como nas demais correntes escatológicas, a figura enigmática do Anticristo é tida como uma pessoa literal ou mesmo uma espécie de sistema de governo. Ainda no pré-tribulacionismo, destaca-se os dispensacionalistas, em sua maioria fundamentalistas bíblicos, que fazem distinção entre Israel e a Igreja quanto às promessas e propósitos de Deus no Novo Testamento; Quanto à parousia (segunda vinda de Cristo), afirma-se que sucederá em duas etapas: no primeiro momento, Cristo voltará somente para a igreja (um encontro nos ares) e, posteriormente, em um segundo momento, Ele voltará com a igreja, para toda a terra.
Muitos dos que defendem a posição pós-tribulacionista também afirmam ser o Espírito Santo a pessoa que retém a aparição do Anticristo, mas não da mesma maneira ensinada no pré-tribulacionismo. Na interpretação pós-tribulacionista, a igreja passará pela grande tribulação. Nesse caso, o Espírito Santo estará presente e ativo na igreja também durante todo esse tempo. Entende-se que Ele exercerá uma ação de restringir o iníquo até certo momento, segundo sua soberana vontade no cumprimento de seus propósitos. A partir daí, voluntariamente cessará tal atividade, permitindo o surgimento do Anticristo ao mundo. O Espírito de Cristo então fortalecerá todos os eleitos, sustentando cada um deles durante as perseguições e martírios que acontecerão nesse período.
Os teóricos do pós-tribulacionismo entendem que o retorno de Cristo (a parousia) só acontecerá após a apostasia e a revelação do anticristo. Ambos os eventos (apostasia e o advento do Anticristo) são condições que necessariamente antecedem a volta de Cristo; Para os pós-tribulacionistas a parousia não pode acontecer se antes não houver a apostasia e a manifestação do Anticristo, conforme interpretam o versículo 3: “Ninguém de maneira alguma vos engane; porque não será assim sem que antes venha a apostasia, e se manifeste o homem do pecado, o filho da perdição...”.
Vale a pena destacar ainda que muitos de nossos irmãos, conhecidos como pós-milenistas, acreditam que a apostasia e o anticristo já ocorreram, juntamente com tantos outros sinais descritos na Bíblia como sinais que apontam para a o retorno iminente de Cristo. Os teóricos desse grupo, ao contrário dos pré-tribulacionistas, voltam seus olhos para trás, para o passado, pois identificam os registros escatológicos da Bíblia com os eventos históricos que já ocorreram. Alguns teólogos dessa corrente identificam a apostasia de 2 Tessalonicenses 2:6 como sendo a dispersão dos judeus que ocorreu por volta do ano 70 d.C. por ocasião da destruição de Jerusalém, e o anticristo, como o imperador romano Nero. Para alguns teólogos, o próprio apóstolo Paulo era “aquele que o detém”, enquanto a sua mensagem, o evangelho de Cristo destinado a judeus e gentios, era de fato o elemento neutro ou impessoal da expressão “aquilo que o detém”. A missão paulina de levar o evangelho também aos gentios foi cumprida, e com isso a força restritiva que impedia a manifestação do anticristo foi cessada.
Já os amilenistas ensinam que o Anticristo não veio no passado, como crêem os pós-milenistas. O Anticristo está por vir e que o mundo está cada vez menos sob influência cristã (amilenismo clássico). Segundo Kuiper: “A Igreja não será tirada misteriosamente da terra antes da grande tribulação começar, mas estará na terra com o chamado para perseverar (Mateus 24:22)”. Para esse grupo, Satanás já esta sob prisão (Ap. 20:1-3), o que não significa inativo, mas limitado em sua ação contra a igreja. Segundo a teoria amilenista, o milênio corresponde todo o período entre a primeira (nascimento, morte e ressurreição de Jesus) e a segunda vinda de cristo, o que significa que já estamos nele. Sobre a passagem paulina em 2 Ts. 2: 6-8, Spykman explica: “Mas, podemos dizer que: Paulo se refere a esta influência restritiva como sendo um poder e também como sendo uma pessoa (...) É como se houvesse uma represa que retém a torrente das impetuosas águas que o anticristo está por soltar sobre este mundo. Esta última manifestação se mantém suspensa “para que [o anticristo] possa ser revelado em seu tempo.” Quando se cumprir o ciclo desta ação restritiva terá lugar à batalha final de vida ou de morte”.
Vimos superficialmente as principais posições em relação ao texto de 2 Tessalonicenses 2:6-8. Necessariamente, o leitor deve estudar com mais profundidade as definições de cada corrente escatológica. O autor desse artigo vê embasamento bíblico nos argumentos de cada teoria, entretanto, nenhuma delas, responde plenamente todas as questões escatológicas que já foram levantadas. O autor tem assumido as posições pré-milenista, pré-tribulacionista e dispensacionalista, mas tem estudado com muito zelo as outras teorias, principalmente o amilenismo.
Com exceção dos pós-milenistas, os outros teóricos crêem que o mundo está sendo preparado para um novo e terrível advento: a aparição do Iníquo ou Anticristo. Em breve se completará a plenitude da iniqüidade. Mas se o Anticristo ainda não se manifestou pessoalmente, o ministério da iniqüidade já está em operação, preparando o seu caminho. Muitos “anticristos” já apareceram (1 Jo.2:18 ). O mundo jaz no maligno (1 Jo.5:19). Entretanto, o Espírito Santo tem protegido de forma eficaz os eleitos de Deus. As Escrituras afirmam que nenhuma pessoa resgatada por Cristo pode ser tomada das mãos do Senhor. O conhecimento dessa imutável verdade é capaz de produzir plena segurança e consolo aos discípulos de Jesus.
Referências Bibliográficas:
CARRIKER, C. T. Paulo, o Apóstolo Apocalíptico: 2 Tessalonicenses 2.6-7. Revista Fides Reformata, vol. 7 nº 1, p. 45-58. Acesso em 28/12/08 em: www.mackenzie.br/fileadmin/Mantenedora/CPAJ/revista/VOLUME_VII__2002__1/FIDES_REFORMATA-045-058.pdf
KUIPER, D. H. Amilenismo ou A Verdade do Retorno do Senhor Jesus. Acesso em 28/12/08 em: http://www.monergismo.com/textos/escatologia_reformada/amilenismo_kuiper.htm
MARSHALL, I. H. I e II Tessalonicenses – Introdução e Comentário. Sociedade Religiosa Edições Vida Nova: São Paulo, SP. 2007.
RODRIGUES, Z. Arrebatamento Pós-Tribulacionista: Uma Exegese De 2 Tessalonicenses 2:1-3. Acesso em 28/12/08 em: http://przwinglio.blogspot.com/2008/06/arrebatamento-ps-tribulacionista.html
SPYKMAN, G. J. A Consumação. Acesso em 28/12/2008 em: www.iglesiareformada.com/Aconsuma__oSpykman.doc
WIERSBE, W. W. Novo Testamento – Comentário Bíblico expositivo, vol. II. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006.
Mostrando postagens com marcador Teologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Teologia. Mostrar todas as postagens
domingo, 28 de dezembro de 2008
quarta-feira, 9 de abril de 2008
Teologia Contemporânea
"... exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos" (Jd. 3)
Um rápido exame sobre a história eclesiástica revelará que ela não ocorreu passivamente, pelo contrário, sua história foi (e está sendo) construída através de grandes conflitos: "A história do cristianismo tem sido uma história de batalhas em prol da fé (1)" . Desde a sua origem até os nossos dias, a igreja tem enfrentado batalhas importantes para sustentar as doutrinas bíblicas ensinadas por Jesus Cristo e os apóstolos.
Os últimos dois séculos têm sido palcos da chamada Teologia Contemporânea, expressão e sistematização dos pensamentos teológicos desenvolvidos principalmente nos séculos XIX e XX. Esse período é nitidamente marcado pelo embate entre as teologias conservadora e liberal. As raízes do liberalismo teológico talvez possam ser encontradas no movimento deísta dos séculos XVII e XVIII. O Deísmo é a religião naturalista, ou seja, a religião da razão, que, de forma geral, sustentava os pensamentos da paternidade universal de Deus e de que a verdadeira religião (a natural) consiste na moralidade e na crença de um ser superior, que seja vagamente pessoal e transcendente. Não havia a necessidade de uma revelação especial, da graça ou de um Salvador. Thomas Jefferson, tão aclamado pelos estadunidenses, tendo sido presidente do país e autor da Declaração de Independência Americana, tinha feito sua própria bíblia, nela, todos os milagres e doutrinas do Novo Testamento que não fossem explicados pela razão foram omitidos (será que sobrou alguma coisa em sua bíblia?). Para sermos justos, é necessário dizer que a maior parte dos teólogos liberais da modernidade não é considerada deísta, entretanto, muito de seus ensinos têm suas origens fincadas nesse movimento (2).
A "alta crítica (3) " do liberalismo teológico é a expressão viva do pensamento modernista, caracterizada pelo ataque direto à concepção da inspiração das Escrituras e sua inerrância. Como resultado, doutrinas fundamentais como o ensino das duas naturezas de Cristo perdiam espaço dentro da cosmovisão moderna. O liberalismo teológico se tornou hoje em um movimento amplo de distintas concepções e perspectivas, caracterizado por uma grande diversidade de pensamentos, conflitantes ou não. Dentre elas, destacamos a teologia do processo, a teologia da libertação, o Evangelho Social, a teologia feminista e a teologia relacional ou teísmo aberto.
Em contraposição ao movimento modernista, houve uma reação dos teólogos e pastores comprometidos com a teologia ortodoxa protestante. Teólogos como Abraham Kuyper, Charles Hodge, Gresham Machen e Carl McIntire foram grandes nomes da teologia conservadora, que se juntaram a outros pensadores e líderes protestantes que viam a teologia liberal como uma séria ameaça ao cristianismo bíblico. Esse movimento reacionário ao modernismo foi cunhado de Fundamentalismo e não surgiu de uma movimentação ou reação à parte da igreja, e sim da própria igreja que reagiu aos movimentos dissidentes e externos, como bem afirmou um próprio teólogo liberal, Kirsopp Loke: " São erros, geralmente cometidos por pessoas educadas que têm pouco conhecimento de teologia histórica, supor que o Fundamentalismo é uma forma de pensar nova e estranha. Ele não é nada disto, ele é... sobrevivente de uma teologia que uma vez foi sustentada universalmente por todos os cristãos. O Fundamentalismo pode estar errado; eu penso que ele está. Mas somos nós que temos desviado da tradição, não eles, e eu sinto pelo fato que alguém argumente com os fundamentalistas na base da autoridade. A Bíblia e o corpus theologicun da Igreja estão do lado fundamentalista "(4).
Um dos marcos desse movimento foi a obra "THE FUNDAMENTALS", editado por R. A. Torrey (disponível em português no site http://www.chamada.com.br/livraria/detalhes/?cod=OF) como resposta conservadora à teologia liberal, trazendo em seu conteúdo as doutrinas essenciais da fé cristã. Vale a pena ressaltar aqui que nem todos os fundamentalistas bíblicos eram (e são) pré-milenistas, doutrina presente no livro, o que gerou uma certa polêmica com os amilenistas e pós-milenistas.
Nos primórdios do movimento, podemos considerar como fundamentalista qualquer cristão protestante conservador, contudo, a partir de 1940 a teologia ortodoxa se viu dividida por dois grupos: o fundamentalista propriamente dito e o neo-evangélico, representante da neo-ortodoxia (tinha como principais representantes o teólogo suíço Karl Barth e o americano Reinhold Niebuhr). A neo- ortodoxia era mais aberta ao diálogo e cooperação com outros cristãos não conservadores e mesmo com católicos. Seus principais expoentes foram Harold J. Ockenga e Billy Graham. A posição firme dos fundamentalistas quanto às doutrinas escatológicas (final dos tempos) e sua forte posição contrária ao evolucionismo tornaram-se os principais fatores para o afastamento dos "evangélicos" (termo preferido por estes para se diferenciarem dos fundamentalistas). Enquanto os "evangélicos" começaram a desenvolver com prostestantes liberais e católicos empreendimentos sociopolíticos e até mesmo evangelísticos, os fundamentalistas passaram a rejeitar qualquer tipo de associação com grupos que não compartilhavam de seu sistema de doutrinas bíblicas. Daí, uma das marcas distintivas do fundamentalismo é a doutrina bíblica da separação.
Embora os "evangélicos" reclamem para si uma teologia conservadora, sua aproximação com grupos liberais e católicos tem colocado em risco suas doutrinas principais. Esse "flerte" tem minado os princípios bíblicos de muitas igrejas, e por abrir mão de ministérios de exortação e defesa da fé, algumas delas, até mesmo pertencentes às denominações históricas estão sucumbindo diante da apostasia e do ecumenismo.
Iniciamos esse breve artigo com a citação de Judas, autor bíblico, que convoca a igreja a batalhar em favor da fé cristã (Judas 3), e agora encerramos, com uma citação do teólogo e escritor reformado, Dr. Martyn Lloyd-Jones, alertando sua congregação do perigo de abandonar a batalha pela fé: “A reprovação da polêmica na Igreja Cristã é uma questão muito grave. Todavia essa é a atitude da época em que vivemos. Hoje a idéia predominante em muitos círculos da Igreja é a de que não devemos importar-nos com essas coisas. Contanto que sejamos cristãos de algum modo, de qualquer modo, tudo estará bem. Não discutamos doutrina, sejamos cristãos unidos e falemos do amor de Deus. Nisso consiste realmente toda a base do ecumenismo. Desafortunadamente, essa mesma atitude está se insinuando também nos círculos evangélicos mais firmes... " (5).
Luciano Hérbet O. Lima
Editor da Revista Sã Doutrina
01. Notas:
1. Pastor Almir Marcolino Tavares, numa palestra sobre Teologia Contemporânea, ministrada na Igreja Batista Boa Vista durante a V Semana Teológica do STBT em Vitória da Conquista – Ba (22 a 26/10/2007). Fez um breve apanhado sobre os principais movimentos contrários à teologia ortodoxa que surgiram desde o início da igreja cristã até os dias atuais. O conferencista tem afirmado que os movimentos sectários e liberais da modernidade não são totalmente inéditos, pois descendem ou têm suas raízes fincadas nos grupos dissidentes da igreja dos primeiros séculos, como por exemplos: o arianismo, sabelianismo e pelagianismo.
2. Louis Berkhof afirma que o deísmo, religião que possui muitas variantes, mas que de forma geral, ensina que Deus deixou sua criação sob leis inalteráveis e que esta se move por si mesma, independente de todo suporte ou direção externa. Esse pensamento faz da criatura auto-sustentadora e mantém Deus fora de sua criação (Teologia Sistemática, pg. 40, 60 e 64)
3. A "alta crítica", termo cunhado pelo crítico liberal J. G. Eichhorn. É uma metodologia investigativa de cunho racionalista aplicada as Escrituras a partir de uma perspectiva anti-sobrenatural, e por isso tem negado a autenticidade de muitos textos bíblicos. Segundo Gleason Archer em sua Enciclopédia de Dificuldades Bíblicas (editora Vida) "o advento do racionalismo e do movimento deísta, no século XVIII, conduziu a uma modificação drástica da posição de inerrância atribuída à Bíblia. Logo se demarcaram as linhas de separação, com nitidez, entre os deístas e os defensores ortodoxos da fé cristã histórica. Uma crescente aversão ao sobrenatural dominou a liderança intelectual do mundo protestante durante o século XIX, e esse espírito cedeu lugar à "crítica histórica", tanto na Europa como nos Estados Unidos".
4. McLachlan, D. R. apud Tavares, A. M.(Apostila sobre Teologia Contemporânea).
5. Lloyd-Jones e a Defesa da Verdade - Exposição de Romanos v. 3 – Editora PES – Autor D. Martyn Lloyd-Jones – p. 140 -142. Disponível em http://astrosnomundo.blogspot.com/2007/12/lloyd-jones-e-defesa-da-verdade.html
02. Referências Bibliográficas:
01. BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. 5. Ed. Campinas: Luz para o Caminho, 1998. 791 p.
02. NICHOLS, Robert Hastings. História da Igreja Cristã. 6. Ed. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1985. 289 p.
03. OLSON, Roger. História da Teologia Cristã . 1. Ed. São Paulo: Vida, 2001. 668 p.
04. RAPHAEL, Danilo. A teologia liberal e suas implicações para a fé bíblica. Disponível em http://solascriptura-tt.org/SeparacaoEclesiastFundament/TeologiaLiberal-Liberalismo-DRaphael.htm Acesso em: 17/Janeiro/2008.
05. TAVARES, Almir Marcolino. Teologia Contemporânea. Apostila do Seminário Batista do Cariri-CE
Um rápido exame sobre a história eclesiástica revelará que ela não ocorreu passivamente, pelo contrário, sua história foi (e está sendo) construída através de grandes conflitos: "A história do cristianismo tem sido uma história de batalhas em prol da fé (1)" . Desde a sua origem até os nossos dias, a igreja tem enfrentado batalhas importantes para sustentar as doutrinas bíblicas ensinadas por Jesus Cristo e os apóstolos.
Os últimos dois séculos têm sido palcos da chamada Teologia Contemporânea, expressão e sistematização dos pensamentos teológicos desenvolvidos principalmente nos séculos XIX e XX. Esse período é nitidamente marcado pelo embate entre as teologias conservadora e liberal. As raízes do liberalismo teológico talvez possam ser encontradas no movimento deísta dos séculos XVII e XVIII. O Deísmo é a religião naturalista, ou seja, a religião da razão, que, de forma geral, sustentava os pensamentos da paternidade universal de Deus e de que a verdadeira religião (a natural) consiste na moralidade e na crença de um ser superior, que seja vagamente pessoal e transcendente. Não havia a necessidade de uma revelação especial, da graça ou de um Salvador. Thomas Jefferson, tão aclamado pelos estadunidenses, tendo sido presidente do país e autor da Declaração de Independência Americana, tinha feito sua própria bíblia, nela, todos os milagres e doutrinas do Novo Testamento que não fossem explicados pela razão foram omitidos (será que sobrou alguma coisa em sua bíblia?). Para sermos justos, é necessário dizer que a maior parte dos teólogos liberais da modernidade não é considerada deísta, entretanto, muito de seus ensinos têm suas origens fincadas nesse movimento (2).
A "alta crítica (3) " do liberalismo teológico é a expressão viva do pensamento modernista, caracterizada pelo ataque direto à concepção da inspiração das Escrituras e sua inerrância. Como resultado, doutrinas fundamentais como o ensino das duas naturezas de Cristo perdiam espaço dentro da cosmovisão moderna. O liberalismo teológico se tornou hoje em um movimento amplo de distintas concepções e perspectivas, caracterizado por uma grande diversidade de pensamentos, conflitantes ou não. Dentre elas, destacamos a teologia do processo, a teologia da libertação, o Evangelho Social, a teologia feminista e a teologia relacional ou teísmo aberto.
Em contraposição ao movimento modernista, houve uma reação dos teólogos e pastores comprometidos com a teologia ortodoxa protestante. Teólogos como Abraham Kuyper, Charles Hodge, Gresham Machen e Carl McIntire foram grandes nomes da teologia conservadora, que se juntaram a outros pensadores e líderes protestantes que viam a teologia liberal como uma séria ameaça ao cristianismo bíblico. Esse movimento reacionário ao modernismo foi cunhado de Fundamentalismo e não surgiu de uma movimentação ou reação à parte da igreja, e sim da própria igreja que reagiu aos movimentos dissidentes e externos, como bem afirmou um próprio teólogo liberal, Kirsopp Loke: " São erros, geralmente cometidos por pessoas educadas que têm pouco conhecimento de teologia histórica, supor que o Fundamentalismo é uma forma de pensar nova e estranha. Ele não é nada disto, ele é... sobrevivente de uma teologia que uma vez foi sustentada universalmente por todos os cristãos. O Fundamentalismo pode estar errado; eu penso que ele está. Mas somos nós que temos desviado da tradição, não eles, e eu sinto pelo fato que alguém argumente com os fundamentalistas na base da autoridade. A Bíblia e o corpus theologicun da Igreja estão do lado fundamentalista "(4).
Um dos marcos desse movimento foi a obra "THE FUNDAMENTALS", editado por R. A. Torrey (disponível em português no site http://www.chamada.com.br/livraria/detalhes/?cod=OF) como resposta conservadora à teologia liberal, trazendo em seu conteúdo as doutrinas essenciais da fé cristã. Vale a pena ressaltar aqui que nem todos os fundamentalistas bíblicos eram (e são) pré-milenistas, doutrina presente no livro, o que gerou uma certa polêmica com os amilenistas e pós-milenistas.
Nos primórdios do movimento, podemos considerar como fundamentalista qualquer cristão protestante conservador, contudo, a partir de 1940 a teologia ortodoxa se viu dividida por dois grupos: o fundamentalista propriamente dito e o neo-evangélico, representante da neo-ortodoxia (tinha como principais representantes o teólogo suíço Karl Barth e o americano Reinhold Niebuhr). A neo- ortodoxia era mais aberta ao diálogo e cooperação com outros cristãos não conservadores e mesmo com católicos. Seus principais expoentes foram Harold J. Ockenga e Billy Graham. A posição firme dos fundamentalistas quanto às doutrinas escatológicas (final dos tempos) e sua forte posição contrária ao evolucionismo tornaram-se os principais fatores para o afastamento dos "evangélicos" (termo preferido por estes para se diferenciarem dos fundamentalistas). Enquanto os "evangélicos" começaram a desenvolver com prostestantes liberais e católicos empreendimentos sociopolíticos e até mesmo evangelísticos, os fundamentalistas passaram a rejeitar qualquer tipo de associação com grupos que não compartilhavam de seu sistema de doutrinas bíblicas. Daí, uma das marcas distintivas do fundamentalismo é a doutrina bíblica da separação.
Embora os "evangélicos" reclamem para si uma teologia conservadora, sua aproximação com grupos liberais e católicos tem colocado em risco suas doutrinas principais. Esse "flerte" tem minado os princípios bíblicos de muitas igrejas, e por abrir mão de ministérios de exortação e defesa da fé, algumas delas, até mesmo pertencentes às denominações históricas estão sucumbindo diante da apostasia e do ecumenismo.
Iniciamos esse breve artigo com a citação de Judas, autor bíblico, que convoca a igreja a batalhar em favor da fé cristã (Judas 3), e agora encerramos, com uma citação do teólogo e escritor reformado, Dr. Martyn Lloyd-Jones, alertando sua congregação do perigo de abandonar a batalha pela fé: “A reprovação da polêmica na Igreja Cristã é uma questão muito grave. Todavia essa é a atitude da época em que vivemos. Hoje a idéia predominante em muitos círculos da Igreja é a de que não devemos importar-nos com essas coisas. Contanto que sejamos cristãos de algum modo, de qualquer modo, tudo estará bem. Não discutamos doutrina, sejamos cristãos unidos e falemos do amor de Deus. Nisso consiste realmente toda a base do ecumenismo. Desafortunadamente, essa mesma atitude está se insinuando também nos círculos evangélicos mais firmes... " (5).
Luciano Hérbet O. Lima
Editor da Revista Sã Doutrina
01. Notas:
1. Pastor Almir Marcolino Tavares, numa palestra sobre Teologia Contemporânea, ministrada na Igreja Batista Boa Vista durante a V Semana Teológica do STBT em Vitória da Conquista – Ba (22 a 26/10/2007). Fez um breve apanhado sobre os principais movimentos contrários à teologia ortodoxa que surgiram desde o início da igreja cristã até os dias atuais. O conferencista tem afirmado que os movimentos sectários e liberais da modernidade não são totalmente inéditos, pois descendem ou têm suas raízes fincadas nos grupos dissidentes da igreja dos primeiros séculos, como por exemplos: o arianismo, sabelianismo e pelagianismo.
2. Louis Berkhof afirma que o deísmo, religião que possui muitas variantes, mas que de forma geral, ensina que Deus deixou sua criação sob leis inalteráveis e que esta se move por si mesma, independente de todo suporte ou direção externa. Esse pensamento faz da criatura auto-sustentadora e mantém Deus fora de sua criação (Teologia Sistemática, pg. 40, 60 e 64)
3. A "alta crítica", termo cunhado pelo crítico liberal J. G. Eichhorn. É uma metodologia investigativa de cunho racionalista aplicada as Escrituras a partir de uma perspectiva anti-sobrenatural, e por isso tem negado a autenticidade de muitos textos bíblicos. Segundo Gleason Archer em sua Enciclopédia de Dificuldades Bíblicas (editora Vida) "o advento do racionalismo e do movimento deísta, no século XVIII, conduziu a uma modificação drástica da posição de inerrância atribuída à Bíblia. Logo se demarcaram as linhas de separação, com nitidez, entre os deístas e os defensores ortodoxos da fé cristã histórica. Uma crescente aversão ao sobrenatural dominou a liderança intelectual do mundo protestante durante o século XIX, e esse espírito cedeu lugar à "crítica histórica", tanto na Europa como nos Estados Unidos".
4. McLachlan, D. R. apud Tavares, A. M.(Apostila sobre Teologia Contemporânea).
5. Lloyd-Jones e a Defesa da Verdade - Exposição de Romanos v. 3 – Editora PES – Autor D. Martyn Lloyd-Jones – p. 140 -142. Disponível em http://astrosnomundo.blogspot.com/2007/12/lloyd-jones-e-defesa-da-verdade.html
02. Referências Bibliográficas:
01. BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. 5. Ed. Campinas: Luz para o Caminho, 1998. 791 p.
02. NICHOLS, Robert Hastings. História da Igreja Cristã. 6. Ed. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1985. 289 p.
03. OLSON, Roger. História da Teologia Cristã . 1. Ed. São Paulo: Vida, 2001. 668 p.
04. RAPHAEL, Danilo. A teologia liberal e suas implicações para a fé bíblica. Disponível em http://solascriptura-tt.org/SeparacaoEclesiastFundament/TeologiaLiberal-Liberalismo-DRaphael.htm Acesso em: 17/Janeiro/2008.
05. TAVARES, Almir Marcolino. Teologia Contemporânea. Apostila do Seminário Batista do Cariri-CE
Assinar:
Postagens (Atom)
