Tradução

sexta-feira, 23 de março de 2007

A Unidade Cristã

M. Matins

"...haverá um rebanho e um Pastor" (João 10:16)

Fala-se muito atualmente em união de igrejas, aproximação das denominações, cooperação entre cristãos, unidade na diversidade, etc., sem se atentar ao que dispõe a Bíblia sobre a verdadeira união. Antes de nos unirmos a determinadas denominações evangélicas, devemos ter em mente aquilo que Deus estabeleceu como a verdadeira unidade do corpo de Cristo.

A Unidade É Pela Verdade

Como exórdio ao presente estudo, devemos ressaltar que a unidade cristã é bíblica e, portanto, deve ser buscada pelos membros do Corpo de Cristo (embora essa unidade não decorra da mera vontade humana). Orando ao Pai, Jesus disse: "Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós. ... E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim; para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste" (João 17:11, 20 e 21). Essa idéia de unidade do corpo de Cristo resulta da idéia central da Tri-Unidade de Deus. Por isso que o apóstolo Paulo declarou: "Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão" (1 Coríntios 10:17).

A unidade do Corpo de Cristo permite a união dos desiguais: "Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito. Porque também o corpo não é um só membro, mas muitos. ... E, se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? Assim, pois, há muitos membros, mas um corpo" (1 Coríntios 12:13-14 e 19-20). Paulo assim escreve para demonstrar que cada membro do corpo é diferente um do outro, mas forma uma unidade: uns são mãos, outros, pés, outros olhos, assim por diante - não somos todos apenas um membro do corpo, mas vários membros formando um só corpo: "E o olho não pode dizer à mão: Não tenho necessidade de ti; nem ainda a cabeça aos pés: Não tenho necessidade de vós. Antes, os membros do corpo que parecem ser os mais fracos são necessários; ... Para que não haja divisão no corpo, mas antes tenham os membros igual cuidado uns dos outros. De maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele." (vs. 21-22; 25-26).

O cristianismo é, sobretudo, uma religião baseada na união - união de gregos e troianos, judeus e gentios, negros e brancos, ricos e pobres, todos unidos numa só fé - mas não tolera a conjunção entre o certo e o errado, a verdade e a mentira, a luz e a escuridão. Assim, a unidade cristã se dá PELA verdade bíblica universal, a Palavra viva, santa e imutável de Deus. Na sua oração pela unidade, Jesus disse: "Porque lhes dei as palavras que tu me deste; e eles as receberam; ... Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade." (João 17:8 e 17). Se não for PELA Palavra de Deus não haverá unidade cristã verdadeira. Portanto, a unidade não deve ser meramente espiritual, mas também bíblico-doutrinária, mediante a uniformidade da fé.

A Unidade É Para a Verdade

Muitos pastores e líderes buscam a unidade em meio ao erro doutrinário, o que contradiz a Palavra de Deus. Essa "unidade", na realidade, agrada muito mais aos homens do que a Deus. Não falo das pequenas diferenças existentes no meio cristão (pois, como dissemos, cada membro do corpo é desigual), que não comprometem a sã doutrina, mas daquelas que possam afetar a verdade bíblica. Por exemplo: como poderei andar com um irmão que vive de "revelações" e que coloca as suas experiências pessoais acima da Bíblia, se eu creio que a Bíblia é a minha única regra de fé e conduta? Ou como poderei participar de uma igreja que ensina um outro evangelho (do cristianismo fácil, da busca de sucesso material, da salvação condicionada ao mérito pessoal, do curandeirismo, da realização de "sinais e prodígios", do G12, etc.) se prego a simplicidade do evangelho de Cristo? "Porventura andarão dois juntos, se não estiverem de acordo?" (Amós 3:3).

Respeito muito o trabalho daqueles que buscam a unidade no meio evangélico, mas esse trabalho será em vão se não for PARA A VERDADE, por obra e vontade do nosso Deus: "Se o SENHOR não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o SENHOR não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela." (Salmos 127:1). O nosso dever de afastamento daqueles que se desviaram da verdade é muito mais bíblico do que a busca pela unidade a qualquer custo: "E rogo-vos, irmãos, que noteis os que promovem dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles." (Romanos 16:17). Essa admoestação não se dirige à observação somente dos "hereges", mas também contra os que promovem "dissensões" doutrinárias, "Porque os tais não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre; e com suaves palavras e lisonjas enganam os corações dos simples." (v. 18). Lembre-se bem deste conselho: "Compra a verdade, e não a vendas." (Provérbios 23:23a).

A Unidade É Mediante a Fé

Se cremos todos em conformidade de fé (essa é a unidade que deve ser buscada - a unidade da fé), há união cristã verdadeira, ainda que distâncias nos separem. Paulo ensina que devemos nos suportar uns aos outros em amor, procurando guardar a UNIDADE DO ESPÍRITO pelo vínculo da paz (Efésios 4:2-3). Para isso, foi-nos dado "uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos ...Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo, para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente." (Efésios 4:11-14). Note bem que essa unidade da fé não comporta variações doutrinárias, porque senão nos tornaríamos como meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina. Havendo a unidade de fé, todo o corpo de Cristo se torna bem ajustado e ligado pelo auxílio de todas as juntas (v. 20), isto é, sem divergências doutrinárias relevantes.

A Unidade Ocorre na Separação

A união cristã verdadeira somente existirá separando-se o joio do trigo. Da mesma maneira que não devemos nos prender a um jugo desigual com os infiéis (2 Coríntios 6:14), de igual forma não podemos nos associar com os que promovem dissensões doutrinárias. Essa unidade do ponto de vista bíblico se dará exclusivamente se houver total separação. Contradição? Não, pois a verdade não se coaduna com o erro; não existe unidade em meio à discórdia.O Pr. Ron Riffe, no maravilhoso artigo intitulado , publicado no Jornal Sã Doutrina (JARF) nº 10 (março/2003), pg 3, citando 2 Tessalonicenses 3:6, 11 e 14-15, lembra que "alguns crentes de Tessalônica estavam com a falsa idéia que o arrebatamento ocorreria em um futuro próximo. Muitos deles venderam suas propriedades, abandonaram seus empregos e ficaram ociosos, esperando o retorno do Senhor. Enquanto aguardavam, alguns recusavam-se a trabalhar pela comida que recebiam, enquanto outros ficavam se metendo na vida alheia". Paulo então os adverte:
"Mandamo-vos, porém, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo o irmão que anda desordenadamente, e não segundo a tradição que de nós recebeu. ... Porquanto ouvimos que alguns entre vós andam desordenadamente, não trabalhando, antes fazendo coisas vãs. ... Mas, se alguém não obedecer à nossa palavra por esta carta, notai o tal, e não vos mistureis com ele, para que se envergonhe. Todavia não o tenhais como inimigo, mas admoestai-o como irmão." (2 Tessalonicenses 3:6, 11 e 14-15).

Observe bem: todos aqueles que promoviam aquela desordem eram crentes em Cristo, esperavam a salvação em Jesus, criam na Bíblia, enfim, podiam ser chamados de "irmãos". Mas andavam desordenadamente (isto é, "marchando em outro ritmo", conforme explicado pelo pastor Riffe), contra a própria tradição apostólica. Qual a semelhança dos tessalonicenses para os crentes hodiernos que praticam coisas contrárias à sã doutrina? Nenhuma, pois ambos andam "desordenadamente". Devemos, pois, nos misturar com os que acreditam em coisas que reprovamos à luz da Bíblia? Ou será que teremos de admitir que eles estão certos e que nós estamos errados? Como nos entenderemos, estando nós em desacordo?

Apartai-vos Deles

Se você acha estas palavras duras e exegeticamente erradas, perdoe-me a franqueza, mas está se opondo ao próprio Deus, que deseja separar um povo santo para sua exclusiva glória e autoridade. A verdade é que, embora possamos considerar muitos deles como irmãos (assim os considero com fundamento em Mateus 24:24 e 2 Tessalonicenses 3:15), devemos nos afastar dos que não estão de acordo com a sã doutrina, para que não haja confusão doutrinária. Não sou eu quem diz, mas o próprio apóstolo Paulo, inspirado pelo Espírito Santos de Deus. A confusão doutrinária no meio cristão é semelhante à balbúrdia ocasionada pela multidão em alvoroço - ninguém se entende e cada um segue desordenadamente. Se eles estão dispostos a nos ouvir, aí sim poderá haver uma aproximação e, quiçá, até a almejada união (eu também a desejo, mas com a verdade).

O apóstolo Paulo ainda demonstra que devemos nos afastar daqueles que se desviaram da sã doutrina: "Ao homem herege, depois de uma e outra admoestação, evita-o, sabendo que esse tal está pervertido, e peca, estando já em si mesmo condenado" (Tito 3:10-11). Certamente o texto fala de heresias; mas, não são heresias as muitas coisas que se pregam em determinados círculos evangélicos? Lembramos que muitas das igrejas com as quais se almeja a união saíram do nosso meio. Por que? "Saíram de nós, mas não eram de nós; porque, se fossem de nós, ficariam conosco; mas isto é para que se manifestasse que não são todos de nós." (1 João 2:19). Saíram de nós por desacordo - voltaremos a nos unir com eles ainda em desacordo?

Várias são as admoestações bíblicas no sentido da separação mesmo: "Se alguém ensina alguma outra doutrina, e se não conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, e com a doutrina que é segundo a piedade, é soberbo, e nada sabe, mas delira acerca de questões e contendas de palavras, das quais nascem invejas, porfias, blasfêmias, ruins suspeitas, contendas de homens corruptos de entendimento, e privados da verdade, cuidando que a piedade seja causa de ganho; aparta-te dos tais." (1 Timóteo 6:3-6). "Todo aquele que prevarica, e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto ao Pai como ao Filho. Se alguém vem ter convosco, e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem tampouco o saudeis. Porque quem o saúda tem parte nas suas más obras." (2 João 1:9-11)

Conclusão

Infelizmente, sempre haverá dissensões doutrinárias no meio evangélico - o joio crescerá no entre o trigo para, finalmente, ser arrancado e lançado fora (Mateus 13:30). E isso é necessário até mesmo para que se levantem os que são leais à sã doutrina: "E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós." (1 Coríntios 11:19); os que não são leais à sã doutrina farão de tudo para alcançarem a união fora dos padrões bíblicos e muitos "leais" poderão se influenciar pela falsa união. No entanto, devemos nos separar dos contradizentes e dos que estão em desacordo com a [única] verdade, sob pena de estarmos agradando ao nosso próprio ventre, aos homens e de desobedecermos a Deus. Ora, "mais importa obedecer a Deus do que aos homens" (Atos 5:29). Essa unidade não pode ser a que almeja nossos corações e nem a que vislumbra nossos olhos humanos, mas deve estar centrada na Palavra da Verdade e se conformar com a vontade divina. Por esse motivo, o líder cristão deve seguir "Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes." (Tito 1:9)
Deus nos abençoe!
Autor: Marcos A. F. Martins - marcosafmartins@ig.com.br

quinta-feira, 22 de março de 2007

O Temor do Senhor

Adrian J. Moggré

O Senhor foi para o seu povo (Israel) um Deus perdoador, ainda que tenha exercido seu juízo sobre os feitos deles. O poeta do salmo 99 glorifica ao Deus de Israel com estas palavras: " O Senhor reina; tremam os povos... Louvem o teu nome, grande e tremendo, pois é santo. Também o poder do Rei ama o juízo; tu firmas a equidade, fazes juízo e justiça em Jacó... tu fostes um Deus que lhes perdoaste, ainda que tomaste vingança dos seus feitos". O mundo pré-diluviano experimentou a ira divina, e mais tarde outras nações também sofreram dolorosamente. De fato, nosso Deus é digno de ser temido. A Bíblia trata com frequência acerca do temor do Senhor. Quem não conhece, por exemplo, as palavras tão frequentemente mencionadas de provérbios 1:7 que "o temor do Senhor é o princípio da sabedoria"?

Uma vida no temor do Senhor é uma nota essencial para uma fé viva. Daí que, para todo cristão, será muito importante sempre recordar o que é o temor do Senhor. O que nos diz a Palavra de Deus sobre o assunto? Quando as Escrituras Sagradas se ocupam do temor do Senhor elas apontam com muita luz na direção da reverência e da veneração ao Pai celestial, criador dos céus e da terra. Portanto, entende-se que por andar em caminhos equivocados e com sua vida presa ao pecado, o indivíduo encontra-se numa situação delicada diante de Deus. Da mesma forma que um menino que cometeu uma diabrura e sente-se agora em dificuldades com o pai por ter provocado algum dano, acontece com os verdadeiros filhos de Deus. Quando são desobedientes ao Senhor, e permitem ser enganados e até levados a praticar más ações, então eles não permanecem tranquilos e eles não passam bem intimamente. A consciência deles os acusa e eles têm temor à ira e o castigo de Deus e se dispõem a confessar ao Senhor. Intencionalmente eu mostro a angústia do filho ante seu próprio pai, porque aqui é preciso distinguir muito bem esse tipo de temor. O conceito que desejo indicar de modo algum trata-se do pânico angustiado de um escravo diante das arbitrariedades de seu duro e insensível senhor; tampouco é comparável e relacionado com a angustia de um cidadão indefeso frente as brutalidades e os rudes caprichos e anseios de poder de um ditador tirano. Com a expressão "o temor do Senhor", a Palavra de Deus traz o sentido de respeito filial ao Senhor.

É o verdadeiro medo em se viver uma vida no pecado. David temia a Deus e, depois do adultério com Betsabé e o homicídio de Urías, ele teve verdadeiro medo pelas consequências. Será que Deus em Sua ira justa faria com que sua vida terminasse como a de Saúl, seu antecessor? David ficou profundamente angustiado, e por isso ele implorou: "Não me lances fora da tua presença, e não retires de mim o teu Espírito Santo" (Salmo 51:11). Tinha acontecido desse modo a Saúl e David tinha presenciado de perto o que aconteceu com o monarca e por isso também sofreu. O Senhor havia retirado Seu Espírito de Saúl, e havia enviado para ele um espírito mal. Era algo horrível. Os últimos anos do governo do rei Saúl se converteram num montão de misérias. Também para David ocorreria agora outro tanto? depois de seu pecado com Betsabé? Temeu por si mesmo e naquela aflição clamou ao Senhor o perdão, e ele rogou a Deus que não afastasse dele o seu Espírito Santo. Era um clamor do fundo de uma consciência sem paz e em angústia para o castigo merecido. Nisto consiste a vida ou o viver no temor do Senhor: uma vida, que mais tarde o apóstolo Paulo encorajou ao filipenses com estas palavras: "...operai a vossa salvação com temor e tremor" (Fil. 2:12). Também Pedro exorta os seus leitores: "...andai em temor, durante o tempo da vossa peregrinação" (1 Pe. 1:17).

É natural que nada se produza ou resulte de uma vida cristã onde os crentes julgam ou pensam que Deus jamais opera o sofrimento ou a dor na vida de uma pessoa, e que nada tem que fazer com o mal (injustiça) neste mundo. Se o Senhor não dispuser da dor ou sofrimento, e nem tampouco move um dedo, nem agora nem nunca, diante daqueles que vivem no pecado, então Seus filhos não têm razão para temê-lo. Como tampouco alguém pode falar de uma vida de acordo com as Escritas no temor do Senhor se ela não quiser saber qualquer coisa sobre a mão de Deus na dor. Isto é algo que você não pode imaginar. Quem não quer ouvir que Deus utiliza do sofrimento, não teme ao Senhor. Além disto, ainda pergunta: Deus quer que exista o inferno? ou quer aquele sofrimento? Mas, quem, continuará ainda temendo o Senhor? Não se poderá dizer de muitos crentes o mesmo que David expressou dos infiéis na igreja do Antigo Testamento: "...Não há temor de Deus perante os seus olhos" (Salmo 36:1).

Uma vida no temor do Senhor - é o que Deus espera de nós; e esse tipo de vida é apontada na exposição de Filipenses 2:12 como sendo uma vida de sentimento humilde de si próprio, e com uma diligência grande e filial, temendo que possa realizar ou desejar algo que entristeça ou provoque a ira de Deus, ou que pudesse dar mal testemunho da salvação.

"Servi ao Senhor com temor,
e alegrai-vos com tremor.
Honrai o Filho, para que não se ire,
e pereçais no caminho,
quando em breve se acender a sua ira"
(Salmo 2:11-12).
  • Autor: Adrian J. Mogrré (extraído do livro "De donde tánto sufrir?" da FELIRe (Fundación Editorial de Literatura Reformada)
  • Traduzido e adaptado por Luciano Hérbet (to be future revision)

Jônatas Edwards



O Grande Avivalista(1703 – 1758)

Há dois séculos o mundo fala do famoso sermão “Pecadores nas mãos de um Deus irado” e dos ouvintes que se agarravam aos bancos pensando que iam cair no fogo eterno. Esse fato foi, apenas, um dos muitos que aconteceram nas reuniões em que o Espírito Santo desvendava os olhos dos presentes para contemplarem as glórias do céu e a realidade do castigo que está bem perto dos que se encontram afastados de Deus.Jônatas Edwards, entre os homens, era o vulto maior nesse avivamento, intitulado, na ocasião, “Grande Despertamento”. Sua vida é um exemplo destacado de consagração ao Senhor para o desenvolvimento maior do intelecto e, sem qualquer interesse próprio, de deixar o Espírito Santo usar o mesmo intelecto como instrumento nas suas mãos.

Amava a Deus, não somente de coração e alma, mas também de todo o entendimento. “Sua mente prodigiosa apoderava-se das verdades mais profundas”. Contudo, “sua alma era, de fato, um santuário do Espírito Santo”. Sob aparente calma exterior, ardia nele o fogo divino, como um vulcão.

Os crentes atuais devem a esse Herói, graças a sua perseverança em orar e estudar sob a direção do Espírito, a volta às várias doutrinas e praticas da igreja primitiva. Grande foi o fruto da dedicação do lar em que Edwards nasceu e se criou. Seu pai foi o amado pastor de uma só igreja durante um período de sessenta e quatro anos. Sua piedosa mãe era filha de um pregador que pastoreou uma igreja durante mais de cinqüenta anos.
Das dez irmãs de Jônatas, quatro eram mais velhas do que ele e seis mais novas. “Muitas foram as orações que os pais ofereceram a Deus para que o único e amado filho fosse cheio do Espírito Santo, e que se tornasse grande perante o Senhor. Não somente oravam assim, fervorosa e constantemente, mas mostravam-se igualmente zelosos em criá-lo para Deus. As orações em volta da lareira, os estimularam a se esforçarem , e seus esforços redobrados os motivaram a orar mais fervorosamente... O ensino religioso e permanente resultou em Jônatas conhecer intimamente a Deus, quando ainda criança”.Quando Jônatas tinha 7 ou 8 anos, houve um despertamento na igreja de seu pai, e o menino acostumou-se a orar sozinho, cinco vezes, todos os dias, e a chamar outros da sua idade para orarem com ele.Citamos aqui as suas palavras sobre esse assunto:

A primeira experiência de que me lembro, de sentir no intimo a delicia de Deus e das coisas divinas, foi ao ler as palavras de 1 Timóteo 1:7: “Ora, ao Rei dos séculos, imortal, invisível; ao único Deus seja honra e glória para todo o sempre. Amém”. Sentia a presença de Deus até arder o coração e abrasar a alma de tal maneira, que não sei descrevê-la... Gostava de passar o tempo olhando para a lua e, de dia, contemplar as nuvens e os céus. Passava muito tempo observando a glória de Deus, revelada na natureza e cantando as minhas contemplações do Criador e Redentor... Antes me sentia demasiado assombrado ao ver os relâmpagos e ouvir o troar do trovão. Porém, mais tarde, eu me regozijava ao ouvir a majestosa e terrível voz de Deus na trovoada.

Antes de completar 13 anos, iniciou seu curso em Yale College, onde, no segundo ano, leu atentamente “Ensaio sobre o Entendimento Humano”, a famosa obra de Locke. Vê-se, nas suas próprias palavras acerca dessa obra, o grande desenvolvimento intelectual do moço: “Achei mais gozo nisso do que o mais ávido avarento em juntar grandes quantidades de ouro e prata de tesouros recém-adquiridos”.Edwards, antes de completar 17 anos, diplomou-se no Yale College com as maiores honras. Sempre estudava com esmero, mas também conseguia tempo para meditar na bíblia, diariamente. Depois de diplomar-se, continuou seus estudos em Yale, durante dois anos, e foi então separado para o ministério.

Foi nessa altura que seu biógrafo escreveu acerca de seu costume de dedicar certos dias para jejuar, orar e examinar-se si mesmo.
Acerca de sua congregação, com a idade de 20 anos, Edwards escreveu: “Dediquei me solenemente a Deus e o fiz por escrito, entregando a mim mesmo e tudo o que me pertencia ao Senhor, para não ser mais meu em qualquer sentido, para não me comportar como quem tivesse direitos de forma alguma... travando, assim, uma batalha como o mundo, a carne e satanás até o fim da vida”.

Alguém assim se referiu a Jônatas: “Sua constante e solene comunhão com Deus, em secreto, fazia com que o rosto dele brilhasse perante o próximo, e sua aparência, semblante, palavras e todo o seu comportamento eram acompanhados de seriedade, gravidade e solenidade”.Aos 24 anos casou-se com Sara Pierrepont, filha de um pastor, e desse enlace nasceram, como na família do pai de Edwards, onze filhos.
Por ocasião do “Grande Despertamento”, ao lado de Jônatas Edwards estava o nome de Sara Edwards, sua fiel esposa e ajudadora em tudo. Tal qual seu marido, ela nos serve de exemplo de rara intelectualidade. Profundamente estudiosa, inteiramente entregue ao serviço de Deus, ela era conhecida por sua santa dedicação ao lar, pelo modo de criar seus filhos e pela economia que praticava, movida pelas palavras de Cristo: “Para que nada se perca”. Mas antes de tudo, tanto ela como seu marido eram conhecidos por suas experiências com a oração. Faz-se menção destacada de um período de três anos, especialmente, durante o qual, apesar de gozar de perfeita saúde, ficava repetidas vezes sem forças por causa das revelações do céu. A sua vida inteira foi de intenso gozo no Senhor.

Jônatas Edwards costumava passar treze horas, todos os dias, estudando e orando. Sua esposa também o acompanhava na oração, diariamente. Depois da última refeição, ele deixava toda a lida a fim de passar uma hora com a família.
Mas que doutrinas a igreja avia esquecido e Edwards começou a ensinar e a observar de novo, com manifestações tão sublimes?
Basta uma leitura superficial para ver que a doutrina à qual deu mais ênfase foi a do novo nascimento, apresentando-a como uma experiência certa e definida, em contraste com a idéia da igreja romana e de várias denominações.

O evento que marcou o começo do “Grande Despertamento” foi uma série de sermões feitos for Edwards sobre a doutrina da justificação pela fé. Que fez os ouvintes sentirem a verdade das Escrituras. O foco de seus sermões era que toda boca ficará fechada no dia juízo, e que “não há coisa alguma que, por um momento, evite que o pecador caia no inferno, senão o bel-prazer de Deus”.É impossível avaliar o grau do poder de Deus, derramado para despertar milhares de almas para a salvação, sem primeiro nos lembrarmos das condições das igrejas da Nova Inglaterra e do mundo inteiro, nessa época. Quem, até, hoje, não se admira do heroísmo dos puritanos que colonizaram as florestas na Nova Inglaterra? Passara, porém, essa glória, e a igreja, indiferente e cheia de pecado, encontrava-se face ao maior desastre. Parecia que Deus não queria abençoar a obra dos puritanos, obra que existiu unicamente para a sua glória. Por isso, no mesmo grau em que havia coragem e ardor entre os pioneiros, houve entre seus filhos perplexidade e confusão. Se não pudessem alcançar, de novo, a espiritualidade, só lhes restava esperar o juízo dos céus.

O famoso sermão de Edwards – “Pecadores nas mãos de um Deus irado”- merece menção especial.
O povo, ao entrar para o culto, mostrava um espírito leviano. E mesmo de desrespeito, diante dos cinco pregadores que estavam presentes. Jônatas Edwards foi escolhido para pregar. Era homem de dois metros de altura; seu rosto tinha aspecto quase feminino, e o corpo magro de jejuar e orar. Sem quaisquer gestos, encostado num braço sobre a tribuna, segurando o manuscrito na outra mão. Falava como voz monótona. Discursou sobre o texto de Deuteronômio 32:35: “Ao tempo em que resvalar o seu pé”.
Depois de explicar a passagem, acrescentou que nada evitava, por um momento, que os pecadores caíssem no inferno, a não ser a própria vontade de Deus; que Deus estava mais encolerizado com alguns dos ouvintes do que com muitas pessoas que já estavam no inferno; que o pecado era como um fogo encerrado dentro do pecador e, com a permissão de Deus, pronto a transformar-se em fornalhas de fogo e enxofre, e que somente a vontade do Deus indignado os guardava da morte instantânea.

Prosseguiu, então, aplicando o texto ao auditório:

Aí esta o inferno com a boca aberta. Não existe coisa alguma sobre a qual vós vos possais firmar e segurar. Entre vós e o inferno existe apenas a atmosfera... Há, atualmente, nuvens negras da ira de Deus pairando sobre vossas cabeças, predizendo tempestades espantosas, com grandes trovões. Se não existisse a vontade soberana de Deus, que é a única coisa para evitar o ímpeto do vento até agora, seríeis destruídos e vos tornaríeis como a palha da eira... O Deus que vos segura na mão, sobre o abismo do inferno, mais ou menos como o homem segura uma aranha ou outro inseto nojento sobre o fogo, durante um momento, para deixá-lo cair depois, está sendo provocado em extremo... Não há que admirar, se alguns de vós com saúde e calmamente sentados aí nos bancos, passarem para lá antes de amanhã...


O resultado do sermão foi como se Deus arrancasse um véu dos olhos da multidão para contemplar a realidade e o horror da posição em que estavam. Nessa altura, o sermão foi interrompido pelos gemidos dos homens e gritos das mulheres, quase todos ficaram de pé ou caídos no chão. Foi como se um furacão soprasse e destruísse uma floresta. Durante a noite inteira a cidade de Enfiled ficou como uma fortaleza sitiada. Ouvia-se, em quase todas as casas, o clamor das almas que, até àquela hora, confiavam na sua própria justiça. Esperavam que, a qualquer momento, o Cristo descesse dos céus com os anjos e apóstolos ao lado, e que os túmulos entregassem os mortos que neles havia.

Tais vitórias contra o reino das trevas foram ganhas de joelhos. Edwards não abandonara nem deixara de gozar os privilégios das orações, costume que vinha desde a meninice. Continuou a freqüentar, também, os lugares solitários da floresta, onde podia ter comunhão com Deus. Como exemplo, citamos a sua experiência com a idade de 34 anos, quando entrou na floresta a cavalo. Lá, prostrado em terra, foi-lhe concedido ter uma visão tão preciosa da graça, amor e humilhação de Cristo como Mediador, que passou uma hora vencido por uma torrente de lágrimas e pranto.
Como era de esperar, o maligno tentou anular a obra gloriosa do Espírito Santo no “Grande Despertamento”, atribuindo tudo ao fanatismo.

Em sua defesa, Edwards escreveu:

Deus, conforme as Escrituras, faz coisas extraordinárias. Há motivos para crer, pelas profecias da bíblia, que sua obra mais maravilhosa seria feita nas últimas épocas do mundo. Nada se pode opor às manifestações físicas, como as lágrimas, gemidos, gritos, convulsões, e falta de forças... De fato, é natural esperar, ao nos lembrarmos da relação entre o corpo e o espírito, que tais coisas aconteçam. Assim falam as Escrituras: do carcereiro que caiu perante Paulo e Silas, angustiado e tremendo; do salmista que exclamou, sob a convicção do pecado: “Envelheceram os meus ossos pelo meu bramido durante o dia todo” (Sl 32:3); dos discípulos, que, na tempestade do lago, clamaram de medo; da Noiva do Cântico dos Cânticos, que ficou vencida pelo amor de Cristo, até desfalecer...”


Certo é que na Nova Inglaterra começou, em 1740, um dos maiores avivamentos dos tempos modernos. É igualmente certo que este movimento se iniciou não com os sermões célebres de Edwards, mas com a firme convicção deste de que há uma “obra direta que o Espírito divino faz na alma humana”. Note-se bem: não foram seus sermões monótonos, nem a eloqüência extraordinária de alguns, como Jorge Whitefied, mas, sim, a obra do Espírito Santo no coração dos mortos espiritualmente, que, “começando em Northampton, espalhou-se por toda a Nova Inglaterra e pelas colônias da América do Norte, chegando até na Escócia e a Inglaterra”. No meio de uma época da maior decadência, a Igreja de Cristo, entre a população escassa da Nova Inglaterra, despertou, e foram arrebatadas de 30 a 50 mil almas do inferno durante um período de dois a três anos.

No meio de suas lutas, sem ninguém esperar, a vida de Jônatas Edwards foi tirada da terra. Apareceu a varíola em Princeton e um hábil médico foi chamado da Filadélfia para inocular os estudantes. O nosso pregador e duas de suas filhas foram também vacinados. Na febre que resultou, as forças de nosso herói diminuíram gradualmente até que, um mês depois, faleceu.
Assim diz um de seus biógrafos: “Em todo o mundo onde se falava o inglês, era considerado o maior erudito desde os dias do apóstolo Paulo ou de Agostinho”.
Para nós, a vida de Jônatas Edwards é uma das muitas provas de que Deus não quer que desprezemos as faculdades intelectuais que Ele nos concede, mas que as desenvolvamos, sob a direção do Espírito Santo, e que as entreguemos desinteressadamente para o seu uso.


Fonte: Livro Heróis da Fé / p. 39-45
Autor: Orlando Boyer / Editora: CPAD
Postado por Flávio Teodoro

terça-feira, 20 de março de 2007

O Mal Causado pelo Hipercalvinismo e pelo Antinomianismo


Charles Spurgeon


O verdadeiro ministro de Cristo sente-se impelido a pregar a verdade completa, porque ela, e somente ela, pode satisfazer as necessidades do homem. Quantos males este mundo tem visto através de um evangelho distorcido, mutilado, modelado pelo homem!Quantos danos têm sido causados às almas dos homens por homens que só têm pregado uma parte, e não todo o conselho de Deus! Meu coração sangra por muitas famílias sobre as quais a doutrina antinomiana conquistou o domínio.

Eu poderia contar muitas historias tristes sobre muitas famílias mortas em pecado, cujas consciências foram cauterizadas com ferro quente pela fatal pregação a que deram atenção. Conheço convicções suprimidas e desejos sufocados pelo sistema destruidor de almas que tira a humanidade do homem e o torna não mais responsável que o boi. Não posso imaginar instrumento mais apto, nas mãos de satanás, para arruinar as almas do que o ministro que diz aos pecadores que não é dever deles arrepender-se dos seus pecados ou crer em Cristo, e que tem a arrogância de dizer-se ministro do evangelho, apesar de ensinar que Deus odeia alguns homens infinita e imutavelmente por nenhuma outra razão senão simplesmente porque decide fazê-lo.

Ó, meus irmão! Queira o Senhor salvar vocês da voz do encantador e mantê-los surdos para a voz do erro!Até nas famílias cristãs, quanto mal um evangelho distorcido produzirá! Já vi o jovem crente, recém – salvo do pecado, feliz no período inicial da sua carreira cristã e andando humildemente com o seu Deus. Mas o mal insinuou-se, disfarçado por um manto de verdade. O dedo da cegueira parcial foi posto sobre os seus olhos, e apenas uma doutrina podia ser vista. Via – se a soberania, não porém a responsabilidade. O ministro outrora amado, era odiado; aquele que tinha sido honesto em pregar a Palavra de Deus era considerado como o maior refugo. E qual foi o efeito? Justamente o inverso do que é bom e generoso. O fanatismo usurpou o lugar do amor; a mordacidade, passou a viver onde uma vez houvera caráter amável.

Eu poderia apontar para vocês inumeráveis casos nos quais a insistência numa só doutrina peculiar levou os homens a um excesso de fanatismo e de rigor estreito. E quando um homem chega a estar nessa posição, ele está bem preparado para cometer qualquer espécie de pecado para o qual praza ao diabo tentá-lo. Há necessidade de que seja pregado o evangelho completo, ou, se não, o espírito, mesmo dos cristãos, fica desfigurado e defeituoso. Conheci homens que eram diligentes por Cristo, labutavam com ambas as mãos para conquistar almas para Cristo; e, de repente, esposaram uma doutrina particular, e não a verdade completa, e daí em diante mergulharam na letargia. Por outro lado, onde os homens só tomaram o lado pratico da verdade e desprezaram o lado doutrinário, muitos e muitos crentes professos se precipitaram no legalismo; falavam como se devessem ser salvos pelas obras, e quase esqueceram a graça pela qual foram chamados. São como os gálatas; foram enfeitiçados pelo que ouviram.

O crente em Cristo, se quiser manter-se puro, santo, caridoso, semelhante a Cristo, só será mantido assim por uma pregação da verdade completa, como se vê em Jesus. E quanto à salvação dos pecadores, ah, meus ouvintes, jamais poderemos esperar que Deus abençoe o nosso ministério para a conversão dos pecadores, a não ser que preguemos o evangelho de modo amplo e geral. Se eu tomar apenas uma parte da verdade e insistir nisso, à exclusão de todas as outras , não posso esperar que o meu Mestre e Senhor me abençoe. Se eu pregar como Ele quer que eu pregue, certamente Ele honrará a palavra; Ele nunca a deixará sem o Seu testemunho vivo. Mas basta que eu imagine que posso melhorar o evangelho, que posso torná-lo coerente, que posso vesti-lo e fazê-lo parecer mais belo, verei que o meu Mestre e Senhor se foi e que nas paredes do santuário está escrito Icabô (Icabode). Quantos são mantidos na escravidão por serem negligenciados os convites do evangelho!

Fonte: Spurgeon Versus Hipercalvinismo A Batalha pela Pregação do Evangelho.
Editora PES.