Tradução

sábado, 26 de maio de 2007

Salvador, sim! Mas Senhor...


“E foi lhe dirigida uma voz (de Jesus): Levanta-te, Pedro, mata e come. Mas Pedro disse: De modo nenhum, Senhor...” Atos 10:13,14

Luciano Hérbet


Lendo a passagem bíblica em Atos 10 podemos perceber claramente uma contradição nas palavras de Pedro. Ele recebeu uma ordem direta de Jesus: “levanta-te, Pedro, mata e come”. Mas qual foi a atitude de Pedro? “De modo nenhum, Senhor!”. Existe em nós algum conhecimento, experiência ou qualquer outra capacidade que seja suficiente para questionarmos a vontade de Deus?

É de fato Jesus o Senhor de nossas vidas?

O apóstolo Tiago, irmão do Senhor, no início de sua carta se apresenta como “doulos” de Deus e do Senhor Jesus Cristo. Essa palavra grega traduzida por “servo” traz o significado de “escravo”. O escravo é aquele servo cuja vontade está submissa à de seu senhor. Sua própria vida, desejos e ambições se encontram nas mãos de seu dono. O Espírito Santo nos ensina através de Paulo que fomos criados para a glória de Jesus (Efésios 1: 3-14). Quando nossas vidas revelam o senhorio de Jesus, então tornamos essa glória manifesta ao mundo.

Infelizmente, muitos de nossos irmãos ainda não entregaram suas vidas sem reservas a Jesus Cristo. Alguns retêm suas posses, talentos, tempo e a própria vida. Entregaram-se parcialmente a Jesus. Vontades, ambições e desejos próprios dominam o coração desses crentes. Têm medo do que Cristo pode pedir a eles. Será uma grande decepção para esses crentes quando perceberem que quando Jesus não é Senhor de toda a sua vida, então Ele não é Senhor de nada que temos. Para estes, será uma grande tristeza quando Jesus, o Rei dos reis e Senhor dos Senhores, os envergonhará diante de seu Pai e de seus anjos.

É de fato Jesus o Senhor de nossas vidas?

Podemos identificar algumas características naqueles que têm amado a Cristo com todo o seu ser (Dt. 6:5):

(1) Consagração: é a entrega total e sem reservas de todo o meu ser e de tudo o que possuo nas mãos do Senhor. Tudo o que temos (literalmente família, posses, bens, profissão, salário, objetos) e o que somos (intelecto, dons, talentos, habilidades) pertencem ao Senhor Jesus. Consagração é o compromisso de dedicar a minha vida para a glória de Deus. Isso implica que tudo que envolve a minha vida tem que está direcionado para a Sua glória. O que eu faço glorifica a Deus? É a Sua vontade que eu faça isso ou aquilo? Podemos ver um claro exemplo de consagração a Deus na vida de Daniel e de seus três amigos (Dn. 1).

(2) Renúncia: quando já tenho entregado tudo a Cristo, com a convicção de que Ele e o seu reino são as prioridades máximas em minha vida, então quando solicitado pelo Senhor estou prontamente disposto a abandonar qualquer coisa. Pensamos na renúncia apenas no que tange as coisas ilícitas e que nos atraem como os prazeres e as coisas mundanas, mas devemos ter o cuidado das coisas lícitas, que per si não são pecaminosas, mas que podem nos afastar dos propósitos de Deus para as nossas vidas. Alguns têm desobedecido a Cristo porque família, status, profissão e outras coisas têm se tornado mais importante do que a vontade de Deus. Depois de Cristo, o maior exemplo de renúncia nas Escrituras encontro na pessoa de Abraão. Ele foi capaz de renunciar o seu próprio filho, o que ele tinha de mais precioso aqui, por amor e fidelidade ao seu Deus.


(3) Temor do Senhor: certa vez ouvi de um colega que ele tinha o desejo de “tomar uma cervejinha”, mas que tinha medo de que seu pastor soubesse. Será que a motivação correta de não nos envolvermos em práticas que consideramos ilícitas é o medo da punição, do castigo? Esse sentimento revela mais uma preocupação consigo mesmo do que com a glória de Deus. A Bíblia diz que devemos andar “com temor e tremor” (Fp. 2:12), isso porque todo o pecado gera conseqüências. Explicando esse versículo, John MacArthur ensina que “essas palavras juntas (phobos e tromos) falam de um saudável temor em ofender a Deus e de um anseio correto para fazermos aquilo que é justo aos olhos dEle”1.

Infelizmente, muitos dos que afirmam ter recebido a Cristo como o salvador de suas vidas não têm demonstrado que Ele também é o Senhor. Vivem como se não pertencessem a um Deus que é Santo, e que tem o direito de fazer o que quiser com as nossas vidas. A submissão ao senhorio de Cristo é tão evidente nas Escrituras como algo destinado aos seus discípulos, que autores como John MacArthur chega a defender a “salvação pelo senhorio"2 . Tenhamos em nosso coração a sincera gratidão ao nosso Deus, que nos criou e nos salvou. Santifiquemo- nos totalmente para o nosso Deus e Salvador Jesus Cristo, com inteira consagração para o Seu serviço.

É de fato Jesus o Senhor de nossas vidas?
Se sim, poderemos cantar de verdade e alegremente o hino sacro:

Não sou meu, Oh, Não sou meu,
Bom Jesus sou todo teu.
Desde agora e para sempre,
Bom Jesus sou todo teu.


Luciano Hérbet O. Lima
Membro da Igreja Bíblica Congregacional em Vitória da Conquista - BA
Editor da revista Sã Doutrina



Notas:
1. MacArthur, John. O Evangelho segundo Jesus (Editora Fiel);
2. MacArthur, John. Nossa Suficiência em Cristo (Editora Fiel)

terça-feira, 22 de maio de 2007

Criei meus filhos na igreja

Pr. João Falcão Sobrinho
Maria Amaro era uma piedosa senhora, piedosa e sábia, membro da Igreja Batista de Barão Taquara. Certa vez, conforme testemunho da irmã Josefa Pereira, dona Maria Amaro assim se expressou em um culto de oração:

- Eu não quero mais ouvir as irmãs que têm filhos afastados da igreja dizerem: Criei meus filhos na igreja e agora eles estão no mundo. Igreja não é lugar para criar os filhos. Filhos, a gente cria em casa.

Tinha razão, toda razão, dona Maria Amaro. Muitos crentes acharam que levar seus filhos à igreja era suficiente para que eles se tornassem bons crentes. Terceirizavam a educação cristã das suas crianças entregando-as à responsabilidade da igreja. Não lhes ensinaram a Bíblia em casa, não os iniciaram na fé cristã pelo exemplo e pela oração, antes viviam em casa de modo oposto ao que era ensinado na igreja, não demonstraram, pela sua fidelidade na mordomia, a prioridade do Reino de Deus em suas vidas.
Os filhos se afastaram da igreja por não terem conhecido, pessoalmente, em casa, o Senhor da Igreja. É impressionante o número de filhos de crentes, inclusive de líderes, diáconos e pastores que estão no mundo, não apenas fora da igreja, mas até hostis à igreja e ao próprio Cristo. As causas são sempre as mesmas. Ao contrário, os crentes que procuraram dar bom testemunho dentro do lar, que resistiram às tentações da maledicência e da murmuração, que foram leais em sua mordomia, que oraram e estudaram a Bíblia com seus pequeninos, que confiaram na graça de Jesus, hoje têm a alegria de ver seus filhos não apenas salvos, mas integrados na vida cristã e na igreja.

As influências negativas do mundo através da mídia, das más companhias e até da escola, tendem a afastar os adolescentes e os jovens da igreja. Por isso a família deve ser um refúgio, uma força moral maior que as influências de fora. É preciso que os pais convivam o máximo que puderem com seus filhos, que tenham diálogo franco e sincero com eles, que os acompanhem com suas mais fervorosas orações, que lhes ensinem a Palavra de Deus em casa desde quando eles são pequeninos. A Bíblia diz que “a oração do justo pode muito em seus efeitos”. Isso é verdade, especialmente em relação às orações dos pais pelos seus filhos. Se você está triste por ver seus filhos fora da igreja, que fazer? Será que não tem mais jeito? Tem jeito sim:

1- Dobre seus joelhos, derrame suas lágrimas diante do Trono de Deus, confiando na graça de Deus e não nas orações suas ou de outros. A graça de Deus alcançará seus filhos não importa para que terra distante tenham eles se afastado.

2- Nas suas orações, indague a Deus que mudanças Deus precisa fazer em você mesmo antes de mudar alguma coisa em seu filho. Provavelmente, haverá alguma coisa que Deus precisará mudar em você antes de ouvir suas orações por uma mudança em seu filho. Se Deus lhe mostrar que você cometeu falhas, peça perdão a Deus. Se suas falhas prejudicaram seus filhos, peça perdão também a eles. Talvez seja esta a parte mais difícil do processo, mas não desanime. Humilhe-se diante de Deus e o Senhor não deixará de responder às suas súplicas.

3- Não procure culpados pela situação dos seus filhos. Procure e ache a misericórdia de Deus por você mesmo, por seu cônjuge, por seu filho e por aqueles que você considera culpados por estarem seus filhos fora da igreja.

4- Cultive uma atitude positiva em relação à igreja e ao seu ministério. Não seja um crítico . Seja um intercessor.

5- Caso o seu cônjuge não seja crente, ou seja um crente fraco, um mau exemplo, nem por isso Deus deixará de ouvir suas súplicas. Você pode neutralizar a influencia negativa desse cônjuge através do poder da sua oração.

Tome para si a promessa de 2Crônicas 7.14, entendendo que, onde o texto diz: “sararei a sua terra”, você bem pode colocar “sararei a sua casa”. Cumpra as condições da primeira parte da promessa e Deus fará o que ali lhe promete.

Pr. João Falcão Sobrinho
(O Jornal Batista - 18/3/07)
Extraído do site www.pibbvc.com.br

terça-feira, 8 de maio de 2007

Exigência e Garantia da Fé

John Brown

Objeção: Acaso não são os pecadores, como pecadores, chamados para aceitarem e a se agarrarem a Cristo no Evangelho? E não seria Ele oferecido aos pecadores assim qualificados, para que abracem esta oferta?

Resposta: Não podemos dizer... que somente pecadores de tal modo e assim qualificados por esta obra preparatória são chamados, pois todos os que ouvem o evangelho estão sob o evangelho, estejam assim preparados ou não. Também é certo que Cristo é oferecido aos pecadores como tais, a eles como estão vivendo e como jazem num estado de pecado, do qual é necessário que Cristo os liberte. Entretanto, embora o pecador mais amortecido, o fariseu mais orgulhoso, o maior justiceiro, o legalista mais confiante em sua justiça própria, estejam sob a obrigação de receber a Cristo, contudo, os que permanecem como tais não receberam assim Cristo e Sua justiça, mas primeiro terão que ser retirados da base falsa e egocêntrica sobre a qual estão agora, e será preciso cortar as amarras da sua justiça própria, antes de serem levados a querer ou a estar em condições de segurar-se em Cristo e de vesti-lO como justiça deles...

Objeção: Pode uma alma vir tão depressa a Cristo? Por que são então necessários tais preparativos, ou um estado preparatório como o do qual falam?

Resposta: Uma alma nunca pode vir depressa demais a Cristo, se você esta falando de tempo; mas uma alma pode pensar depressa demais que lhe é concedido agarrar-se às consolações de Cristo, e assim enganar-se. Não podemos deixar que nada detenha quem quer que seja que esteja querendo agarrar-se a Cristo; mas somente podemos e devemos mostrar qual é o método comum do Senhor, e o que deve acontecer antes de uma alma achegar-se a Cristo, em conformidade com os termos do evangelho.

Objeção: Porventura Cristo não é oferecido livremente a quem vir a Ele e que queira recebê-lO? Que necessidade haveria então de falar destas obras preparatórias da lei?

Resposta: Admitimos que Cristo é oferecido livremente, e que deve ser recebido livremente; e o que dizemos sobre estas obras preparatórias da lei em nada é contra a liberdade da graça do evangelho; pois de modo nenhum vemos estas obras preparatórias como meritórias; o Senhor, seguindo ordinariamente este método com pessoas adultas, não diminui nem um pouco a liberdade da oferta do evangelho; acolhemos bem todos os que querem vir; e se eles tão-somente estão querendo aceitar a oferta do evangelho, e não se dispõem a rejeitá-la, não exigimos mais nenhuma preparação; e isto é necessário em todos os que vêm a Ele.

Objeção: Parece então que a pessoa esta autorizada a crer porque está de tal modo humilhada e convencida, não antes de ter em si tais obras preparatórias.

Eu respondo, para falar mais apropriadamente, que ver a necessidade não dá nenhuma garantia ou autorização, porém tem a força de um forte motivo para exercitar e instigar a alma a buscar socorro e alívio; o chamado e a ordem de Cristo dão a garantia; contudo, dizemos, as pessoas não lançarão mão do chamado de Cristo, nem seguirão sua ordem, nem virão a Ele baseadas na garantia do Seu chamado, enquanto não virem em alguma medida a sua necessidade, e o fato que de outro modo elas são criaturas arruinadas.

Fonte: Livro: Spurgeon Versus Hipercalvinismo A Batalha pela Pregação do Evangelho.
Autor: Iain H. Murray
Editora PES. p.161-163

A Vontade Decretiva e a Vontade Preceptiva de Deus

Charles Hodge

A vontade decretiva de Deus diz respeito a seus propósitos, e se relacionam com a fortuidade dos acontecimentos. A vontade preceptiva se relaciona com a norma do dever para com suas criaturas racionais. Ele decreta tudo o que propõe efetuar ou permitir. Prescreve, segundo sua própria vontade, o que suas criaturas devem fazer ou abster-se de fazer.A vontade decretiva e a vontade preceptiva de Deus nunca podem entrar em conflito. Deus nunca decreta fazer ou levar a outros fazer o que Ele proíbe. Ele pode, como vimos que faz, permitir o que proíbe. Ele permite aos homens pecar, embora o pecado seja proibido.

Isso é expresso de forma mais escolástica pelos teólogos, dizendo: Uma vontade decretiva positiva não pode consistir em uma vontade preceptiva negativa; ou seja, Deus não pode decretar fazer os homens pecar. Mas uma vontade decretiva negativa pode consistir em uma vontade preceptiva afirmativa; por exemplo, Deus pode ordenar que os homens se arrependam e creiam, e todavia, por razões sabias, abster-se de proporcionar-lhes arrependimento.
A distinção entre voluntas beneplaciti et signi, como esses termos são comumente usados, é a mesma entre a vontade decretiva e preceptiva de Deus. Uma se refere aos seus decretos, fundamentados em seu beneplácito; a outra, a seus mandamentos, fundamentados no que ele aprova ou desaprova.Pela vontade secreta de Deus, quer-se dizer seus propósitos, quando ainda ocultos em sua própria mente; por sua vontade revelada, seus preceitos e seus propósitos, até onde são feitos conhecidos a suas criaturas.

Teologia Sistemática de Charles Hodge p. 304 e 305.