Tradução

terça-feira, 13 de novembro de 2007

´SE É MINISTÉRIO, SEJA EM MINISTRAR

"Se é ministério, seja em ministrar; se é ensinar, haja dedicação ao ensino" (Rm. 12:7)
Flávio Teodoro*

Que será que Paulo pretendia dizer com essas palavras? Pois bem, para respondermos a essa pergunta nos será necessário irmos à outra passagem onde Paulo diz a mesma coisa. Esse é um método eficiente na interpretação de textos bíblicos. Sempre quando nos depararmos com uma passagem difícil ou com algum texto em que ficamos na duvida quanto ao que ele esta dizendo será sábio seguir esse método. Procurar em outro lugar na mesma Escritura onde há a mesma declaração. Pois bem, usaremos como paralelo 1 Contintios 12:28 que diz: “E a uns pôs Deus na igreja, primeiramente apóstolos, em segundo lugar profetas, em terceiro doutores, depois milagres, depois dons de curar, socorros...”.

Paulo aqui esta se referindo aquele dom que habilita a pessoa ou as pessoas ajudarem ou num termo mais inclusivo para o nosso entendimento, o dom de auxiliar. Esta capacidade se mostra em muitas formas diferentes. Um exemplo típico desse dom o caso dos diáconos na vida da igreja. Eles são aqueles que auxiliam, ajudam, cooperam, administram os negócios da igreja. Necessariamente se um irmão não possui a capacidade de exercer essas funções ele não poderá servir como diácono. Porém não se limita aos diáconos a posse desse dom particular, citei-os como exemplo para nossa compreensão.

Vejamos no Novo Testamento um exemplo desse dom. Tomemos para nossa meditação o caso de Marcos, o sobrinho de Barnabé. Paulo escrevendo a sua segunda epistola a Timóteo diz: “Só Lucas está comigo. Toma Marcos, e traze-o contigo, porque me é muito útil para o ministério” (2 Timóteo 4:11). Havia utilidade em Marcos para determinados serviços de ajuda ao apostolo Paulo. Outro exemplo é o relato em Atos, sobre a questão das viúvas que estavam sendo desprezadas e a resposta dos apóstolos em solução daquele problema particular foi: “Escolhei, pois, irmãos, dentre vós, sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais constituamos sobre este importante negócio”. (Atos 6:3) Era um dos varios problemas que presisam de pessoas capacitadas para resolvê-los; digo pessoa especificas para tal. Veja a resposta dos apostolos “Mas nós perseveraremos na oração e no ministério da palavra” (v.4) Os apóstolos não podiam negligenciar o ministério da palavra se ocupando em outras funções. Vejam que o Espírito Santo para que ninguém viesse a argumentar no sentido de querer desprezar essa função que (aparentemente) parece menor em valor do que a ministração da palavra, o apostolo diz: “este importante negócio” (v.3).

E aqui na lista de Romanos esse dom vêm logo em seguida ao dom de profecia, e isso porque é um dom muito importante. Um exemplo que podemos usar também quanto à utilidade desse dom se encontra naqueles que agem como recepcionistas na igreja, que introduzem os visitantes e membros na igreja. Não será bom deixar este tema sem uma palavra de admoestação. Não venhamos convir que qualquer pessoa servi para servir. Pois como se trata de um dom, somente aqueles que o tem é que servirão de bom grado nas suas respectivas funções. Um pessoa pode até desempenhar uma função de serviço na casa do Senhor, mas se ela não for por Deus convocada a isso, ela não servirá com prazer e alegria. Pois se trata de um dom; Deus habilita tais pessoas para servirem na igreja de maneira tal que elas não murmuram e nem acham pesado os serviços prestados por elas. Por exemplo: uma pessoa que é encarregada da limpeza da igreja e que por Deus foi designada a isso, a limpará (sabendo) que com isso está servindo primeiramente a Deus. E como cristã o fará com todo o prazer.

* Texto adaptado a partir dos comentários de D. M. Lloyd-Jones (Exposição de Romanos capítulo 12 - Editora PES)

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

QUAL É O SEU MINISTERIO?

Hernandes Dias Lopes

O apóstolo Paulo em Efésios 4.12-16 fala que a principal função daqueles que ministram a Palavra é equipar os santos para o exercício do ministério. Quando comparamos esse desiderato divino com a realidade da igreja constatamos que estamos fora de foco. A igreja não é um auditório, onde uns falam e outros ouvem; uns fazem e outros assistem; uns pagam a conta e outros trabalham. A igreja é um corpo, onde todos estão envolvidos e capacitados para fazer a obra de Deus. Queremos destacar alguns pontos para a nossa reflexão:


1. Deus mesmo concede dons a alguns membros do corpo para o ministério de ensino. É Deus mesmo quem concede à igreja aqueles que têm dons de ensino. Ninguém deve buscar para si esse mister. Ele é dado por Deus. É o Senhor quem escolhe, chama e capacita. É o Senhor quem capacita uns para capacitar a outros. A igreja, portanto, é uma academia onde está presente o processo ensino-aprendizagem. A igreja não é uma platéia, mas um campo de treinamento, onde todos os salvos recebem dons e preparo para o exercício do ministério. Um corpo tem vários membros e todos os membros devem estar em ação, cada um cumprindo a sua função, a fim de que o corpo cresça em harmonia, pela justa cooperação de cada parte.


2. Os dons espirituais não são mecanismos de autoprojeção, mas instrumentos de serviço. Aqueles que ocupam uma posição de liderança, especialmente na área do ensino e capacitação, não podem nutrir vaidade no coração, julgando que são melhores que os outros membros do corpo. Nada temos que não tenhamos recebido. Os mestres terão um julgamento mais severo que os demais membros do corpo (Tg 3.1). A quem muito é dado, muito é exigido. A posição de liderança não é um posto de privilégios, mas uma plataforma de serviço. O líder não é aquele que pensa que os outros devem viver em sua função, mas aquele que vive em função dos outros. Jesus é o nosso exemplo superlativo e maiúsculo de um líder servo. Ele não veio para ser servido, mas para servir. Ele, sendo Deus esvaziou-se. Ele sendo o Mestre e o Senhor, lavou os. os pés dos discípulos e fez da bacia e da cruz símbolos do cristianismo.


3. No corpo de Cristo todos os membros devem ser capacitados para o trabalho de Deus. A igreja é o corpo de Cristo em ação na terra. Todos os membros estão ligados à cabeça e unidos pelo mesmo sangue e pelo mesmo Espírito. Não existe membro morto nem inútil no corpo de Cristo. Na igreja de Deus existe diferença de ministérios, mas não graus de importância. Todos são servos. Na igreja de Deus não tem espaço para o complexo de superioridade nem de inferioridade; antes, devemos cooperar uns com os outros em amor. Assim como não existe membro sem função no corpo, não existe crente sem ministério na igreja. Assim como não existe membro do corpo fora do comando do cérebro, não existe crente verdadeiro que se insurja contra a autoridade de Cristo. Assim como não existe membro do corpo sem ligação e interdependência com os outros membros, não existe membro da igreja isolado dos demais irmãos. Assim como não há crente sem dons espirituais, não há crentes sem trabalho na igreja de Deus.


4. No corpo de Cristo os crentes são capacitados para fazer a obra e não para fiscalizarem a obra. A igreja é um mutirão, onde todos os membros se envolvem com o trabalho. Há espaço para todos, há trabalho para todos, há ministério para todos. A igreja, onde cada crente descobre seu dom e sua função no corpo tem saúde e crescimento. Uma igreja saudável cresce naturalmente. Porém, se um membro do corpo não é exercitado, ele atrofia e adoece todo o corpo. Se ele atrofia, ele sobrecarrega os outros membros e dá trabalho aos outros. Um crente que não trabalha, dá trabalho. Assim, a igreja não é um clube de serviço, onde pagamos uma mensalidade para recebermos determinados serviços. A igreja não é uma empresa, onde quem tem poder manda e os demais apenas cumprem ordens. A igreja não é um estádio, onde apenas alguns atletas entram em campo e os demais torcem ou criticam o seu desempenho.
A igreja é um corpo, onde cada membro exerce a sua função. Qual é o seu dom espiritual? Qual é o seu ministério na igreja de Deus? Qual tem sido sua contribuição para o crescimento da igreja?

Enviado por Flávio Teodoro
http://www.reformaparahoje.blogspot.com

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

A tríplice operação nas ações más: de Deus, do homem e de Satanás

João Calvino


Bem outra é a maneira de ação divina em atos como esses. Para que essa se nos evidencie com certeza maior, por exemplo, a calamidade infligida pelos caldeus ao santo Jó [41.20]: mortos seus pastores, os caldeus saqueiam-lhe hostilmente os rebanhos [Jó 1.17. Destes o ato ímpio já abertamente se ostenta; nem nesta operação deixa de ter parte Satanás, de quem a historia narra provir tudo isso [Jô 1.12]. Mas, o próprio Jó reconhece nisso a ação do Senhor, a quem diz haver-lhe tirado as coisas que tinham sido pilhadas pela instrumentalidade dos caldeus Jó [1.21].

Como pois, haveremos de atribuir, por seu autor, o mesmo ato a Deus, a Satanás e ao homem, sem desculparmos a Satanás, em virtude de sua associação com Deus, ou a Deus qualificarmos de autor do mal? Facilmente, se atentarmos primeiro para o fim; então, para o modo do agir. O desígnio do Senhor é exercitar pela calamidade a paciência de seu servo; Satanás está empenhado em levá-lo ao desespero; os caldeus buscam, fora do direito e da ética, obter ganho da coisa alheia. Tão grande diversidade nos intentos já distingue amplamente a operação de cada um.

Não menos de diferença há no modo do agir. O Senhor permite a Satanás que seu servo seja afligido; concede e entrega, para que os caldeus sejam impelidos por ele, a quem escolheu por ministros para que executem isto. Satanás, por outro lado, com seus aguilhoes envenenados, espeta o espírito depravado dos caldeus para que perpetrem esta abominação; estes se arrojam furiosamente à injustiça e atrelam e contaminam nessa perversidade a todos os seus membros. Portanto, diz-se com propriedade que Satanás age nos réprobos, nos quais exercem seu domínio, isto é, o reino da iniqüidade.

Também se diz que Deus opera, a seu modo, pelo que o próprio Satanás, como é instrumento de sua ira, por seu arbítrio e império, se verga para cá e para lá a executar-lhe os justos juízos. Não estou aqui a considerar a operação universal de Deus, pela qual todas as criaturas são daí sustentadas, portanto donde derivam a capacidade de fazer tudo quanto fazem. Estou falando somente desta operação especial que se mostra em cada ato.

Logo, vemos que não é absurdo atribuir o mesmo ato a Deus, a Satanás e ao homem; ao contrário, a diversidade no propósito e na maneira faz com que reluza aqui, sem culpa, a justiça de Deus; com seu opróbrio se manifesta a impiedade de Satanás e do homem.

(João Calvino / As Institutas - Edição Clássica – v.2. p. 70)

quarta-feira, 18 de julho de 2007

A Soberania de Deus e as ações dos ímpios

João Calvino

CAPÍTULO XVII
DEUS DE TAL MODO USA AS OBRAS DOS IMPIOS E A DISPOSIÇÃO LHES INCLINA A EXECUTAR SEUS JUÍZOS, QUE ELE PROPRIO PERMANECE LIMPO DE TODA MÁCULA

1. Eficiência, não permissividade, é a relação de Deus para com a ação dos ímpios


Uma questão mais difícil emerge de outras passagens, onde se diz que Deus, a seu arbítrio, verga ou arrasta todos os réprobos ao próprio Satanás. Pois o entendimento carnal mal pode compreender como, agindo por seu intermédio, Deus não contraia nenhuma mácula de sua depravação; aliás, em uma ação comum, seja ele isento de toda culpa, e inclusive condene, com justiça, a seus serventuários. Daqui se engendrou a distinção entre fazer e permitir, visto que esta dificuldade a muitos pareceu inextricável, ou, seja, que Satanás e todos os ímpios estão de tal modo sob a mão e a autoridade de Deus, que este lhes dirige a malignidade a qualquer fim que lhe apraz e faz uso de seus atos abomináveis para executar seus juízos. E talvez fosse justificável a sobriedade destes a quem alarma a aparência de absurdo, não fora que, sob o patrocínio de uma inverdade, de toda nota sinistra tentam erroneamente defender a justiça de Deus. Parece-lhes absurdo que, pela vontade e determinação de Deus, seja feito cego um homem que, a seguir, haverá de sofrer as penas de sua cegueira. Dessa forma evadem-se tergiversando que isso se dá apenas pela permissão de Deus, entretanto não por sua vontade. Mas é Deus mesmo que, ao declarar abertamente que ele é quem o faz, repele e condena tal subterfúgio.
Que os homens não fazem coisa alguma sem que tacitamente Deus lhes dê permissão, e que nada podem deliberar senão o que ele de antemão determinou em si mesmo, e o que ordenou em seu conselho secreto, se prova à luz de testemunhos inumeráveis e claros. O que do Salmo [115.3] citamos anteriormente – “Deus faz tudo quanto lhe apraz” -, é certo que se aplica a todas as ações dos homens. Se, como aqui se diz, Deus é o árbitro real das guerras e da paz, e isto sem qualquer exceção, quem ousará dizer que, desconhecendo-o ele ou mantendo-se passivo, são os homens a elas arrojados, ao acaso, como por um cego impulso?

Mas, mais luz haverá em exemplos especiais. Do primeiro capitulo de Jô sabemos que Satanás, não menos que os anjos que obedecem de bom grado, se apresenta diante de Deus para receber ordens. Certamente que isso ele o faz de maneira e com propósito diferentes, todavia de modo que não possa encetar algo, a não ser que Deus o queira. E visto que, entretanto, em seguida parece explicar-se permissão absoluta para que aflija ao santo varão, daí ser verdadeira esta afirmação: “O Senhor o deu, o Senhor o tirou; como aprouve a Deus, assim se fez” [Jô 1.21], desta provação concluímos que Satanás e os salteadores perversos foram os ministros; Deus foi o autor. Satanás se esforça por incitar o santo a voltar-se contra Deus movido pelo desespero; os sabeus ímpia e cruelmente lançam mão dos bens alheios, roubando-os. Jô reconhece que da parte de Deus fora despojado de todos os seus haveres e em pobre transformado, pois assim aprouvera a Deus.

Portanto, seja o que for que os homens maquinem, ou o próprio Satanás, entretanto Deus retém o timão, de sorte que lhes dirija os propósitos no sentido de executarem seus juízos. Deus quer que o pérfido rei Acabe seja enganado; para esse fim oferece seus préstimos o Diabo. Por isso é enviado com um mandado definido: que seja um espírito mentiroso na boca de todos os profetas [1Rs 22.20-23]. Se a obcecação e insânia de Acabe é o juízo de Deus, desvanece-se a interpretação imaginária da permissão absoluta, pois seria ridículo que o Juiz apenas permitisse o que queira que fosse feito, contudo não o decretasse e não determinasse a execução aos serventuários”.

Propõem-se os judeus eliminar a Cristo; Pilatos e seus soldados condescendem a seu perverso anseio. Entretanto, os discípulos confessam em solene oração que todos esses ímpios nada fizeram senão o que a mão e o plano de Deus haviam decretado [At. 2.28]. Como antes Pedro pregara que “Cristo fora entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus”, para que fosse morto [At. 2.23], como se dissesse que Deus, a quem desde o começo nada foi oculto, cônscia e deliberadamente determinara o que os judeus vieram a executar, como, alias, o reafirma em outra passagem [At.3.18]: “Deus, que predisse através de todos os seus profetas que Cristo haveria de sofrer, assim o cumpriu.”

Absalão, poluindo o leito do pai mediante união incestuosa, perpetra abominável iniqüidade [2Sm 16.22]; no entanto, Deus declara ser isso obra sua, pois estes são os termos: “Tu o fizeste em oculto; eu, porém, farei isto às claras, e diante do sol” [2Sm 12.12].

Jeremias declara ser obra de Deus tudo quanto de crueldade os caldeus praticaram na Judéia, por cuja razão Nabucodonosor é chamado “servo de Deus” [Jr 25.9; 27.6]. Reiteradamente, apregoa Deus que por seu assobio [Is 5.26; 7.18], pelo clangor de sua trombeta [Os 8.1], por seu império e mandado, os ímpios são incitados à guerra; ao assírio chama “vara de meu furor e machado que aciona em minha mão” [Is 5.26; 10.5]; a destruição da cidade santa e a ruína do templo denomina obra sua; Davi, não murmurando contra Deus, ao contrário, reconhecendo-o como justo Juiz, confessa também que de seu mandado provinham as maldições de Simei [2Sm 16.1]: “O Senhor’, diz ele, “o mandou amaldiçoar.” Mas vezes, ainda, ocorre na história sagrada que tudo quanto acontece procede do Senhor, como o cisma das tribos [1Rs 11.31]; a morte dos filhos de Eli [1Sm 2.34]; e muitíssimos outros fatos da mesma natureza. Aqueles que são ao menos medianamente versados nas Escrituras vêem que, para alcançar a brevidade, menciono apenas uns poucos exemplos dentre muitos, dos quais, no entanto, se faz mais do que evidente que dizem coisas sem nexo e pronunciam absurdos esses que no lugar da providencia de Deus colocam a permissão absoluta, como se, assentado em uma guarita, aguardasse ele eventos fortuitos, e assim do arbítrio dos homens dependessem seus juízos.

(João Calvino / As Institutas - Edição Clássica – v.1. p. 223-224)